*Por Ana Paula Soukef e Paula Vianna

Dos dois lados da estrada, plantações de milho transgênico se estendem a perder de vista. A paisagem, comum no oeste paranaense, faz parte do caminho até a Comunidade Quilombola Apepu, localizada em São Miguel do Iguaçu.  

Cercada por extensas áreas de monocultura e localizada ao lado do Parque Nacional do Iguaçu, a Comunidade Quilombola Apepu possui uma trajetória marcada pela resistência e pela permanência no território. A comunidade foi reconhecida pela Fundação Cultural Palmares em 2006, porém sua história começa muito antes disso.

Roberto Correia, liderança do quilombo, conta a história das famílias e a luta para colocar o Quilombo nas rotas do Parque Iguaçú. Foto: Paula Vianna
Roberto Correia conta a história das famílias e a luta para colocar a comunidade nas rotas do Parque Iguaçú. Foto: Paula Vianna

Roberto Correia, atual liderança local e responsável por receber os visitantes, pertence à quarta geração nascida e criada no Quilombo Apepu. Segundo ele, a história começou no início do século XX, quando seu bisavô veio de Curitiba para o oeste do Paraná para trabalhar na instalação de linhas telegráficas. Ao final do serviço, recebeu terras na região como parte do pagamento. Desde então, a família Correia habita esse território, que teve sua extensão significativamente reduzida ao longo do tempo.

Atualmente, apenas 12 famílias permanecem na comunidade, muitas delas tirando seu sustento da terra por meio da produção de alimentos. Roberto explica que, com a redução do território, diversas famílias que viviam no quilombo foram obrigadas a buscar outros lugares para viver. As que permaneceram seguem lutando pelo reconhecimento territorial. Ele conta que o reconhecimento existente hoje, por parte do governo federal, é do povo quilombola, mas que a garantia e a proteção do território ainda seguem como uma reivindicação da comunidade.

A principal perda territorial ocorreu com a expansão dos limites do Parque Nacional do Iguaçu. Parte significativa da área tradicionalmente ocupada pelas famílias quilombolas passou a integrar a unidade de conservação na década de 1980. Roberto relata que, durante décadas, a relação com a administração do parque foi marcada pela ausência de diálogo. Nos últimos anos, porém, esse cenário começou a mudar. “Durante décadas não fomos escutados, nunca nenhum gestor esteve aqui. Mas hoje conseguimos estabelecer diálogo. Pela primeira vez, um gestor veio até nosso território e se propôs a conversar conosco”, afirma.

Foi desse processo de aproximação que nasceu a Trilha Quilombo do Apepu, um percurso de cerca de 6,7 quilômetros que sai da comunidade e atravessa a floresta nativa até as margens do Rio Iguaçu. Os investimentos para a revitalização do caminho foram realizados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e integram uma proposta de turismo de base comunitária conduzida pelas lideranças e famílias quilombolas. Para a comunidade, a trilha representa uma forma de reafirmar sua presença no território e compartilhar a história do Apepu com os visitantes.

Produção de alimentos no Quilombo Apepu, que fortalece a resistência e a permanência no território. Foto: Ana Paula Soukef
Produção de alimentos no Quilombo Apepu, que fortalece a resistência e a permanência no território. Foto: Ana Paula Soukef

“A nossa relação com a terra vem dos nossos antepassados. Sempre digo aos mais jovens que precisamos agradecer e honrar o território que nos foi deixado, mas também cuidar dele, para que não percamos aquilo que herdamos”, pontua. Ele ainda ressalta que o objetivo principal é recuperar a área que pertence à comunidade. “É uma luta difícil, mas não vamos desistir. Queremos garantir melhores condições de vida para as próximas gerações e evitar que elas passem pelo que nossos antepassados e nós passamos”, acrescenta Roberto.

Tekoha: o modo Guarani de existir e habitar o território

A trajetória do Tekoha Ocoy, no município de São Miguel do Iguaçu, é marcada pela perda de grande parte de seu território tradicional. A comunidade foi profundamente impactada pela construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, responsável pelo alagamento de extensas áreas pertencentes ao povo Avá-Guarani no oeste do Paraná. Diante desse processo de desterritorialização, famílias e lideranças organizaram uma longa resistência para garantir sua permanência na região. Foi essa mobilização, protagonizada por lideranças como Fernando Martinez Kambai, que, em 1982, assegurou à comunidade uma área de 232 hectares, uma fração muito reduzida do território que tradicionalmente ocupava.

Liderança Avá-Guarani mostra aos visitantes parte do território alagado pela Usina Hidrelétrica de Itaipu, em 1982, evento que impactou profundamente a vida indígena no oeste do Paraná. Foto: Ana Paula Soukef
Liderança Avá-Guarani mostra aos visitantes parte do território alagado pela Usina Hidrelétrica de Itaipu, em 1982, evento que impactou profundamente a vida indígena no oeste do Paraná. Foto: Ana Paula Soukef

Desde então, as famílias Guarani do Tekoha Ocoy seguem lutando por seus direitos e por melhores condições de vida. Além das limitações de espaço, enfrentam há décadas conflitos agrários, preconceito e os impactos provocados pelo entorno dominado pelas monoculturas. Entre os principais problemas denunciados pelos moradores está a contaminação causada pela pulverização de agrotóxicos nas lavouras vizinhas, situação já identificada  em pesquisas e denunciada  pela Comissão Guarani Yvyrupa (CGY).

Silvano Centurião, uma das lideranças do território, explica que essa contaminação afeta diretamente a produção de alimentos. Segundo ele, o cultivo comunitário exige um cuidado cada vez maior com a recuperação e a preparação do solo. “Diferente do modelo agrícola do não indígena, as famílias daqui buscam produzir alimentos saudáveis para o próprio consumo. Mas nem sempre é fácil. Precisamos preparar melhor a terra para conseguir plantar, fazer análises do solo e contar com o apoio de especialistas, o que nem sempre é possível”, relata.

Apesar das dificuldades, a produção de alimentos continua sendo uma das formas de resistência local. Um dos exemplos está na horta mantida pelo Colégio Estadual Indígena Teko Nemoingo, espaço que envolve estudantes, professores e famílias no cultivo de alimentos e na transmissão de conhecimentos tradicionais. O nome da escola, Teko Nemoingo, refere-se justamente à importância de resgatar o modo tradicional Guarani de viver.

Mudas de plantas medicinais foram entregues pelos participantes da caravana à comunidade do Tekoha Ocoy, como forma de retribuição pela visita e fortalecimento dos vínculos. Foto: Ana Paula Soukef
Mudas de plantas medicinais foram entregues pelos participantes da caravana à comunidade do Tekoha Ocoy, como forma de retribuição pela visita e fortalecimento dos vínculos. Foto: Ana Paula Soukef

A instituição adota uma proposta de ensino diferenciada, que busca articular os conteúdos da educação formal aos saberes, à história e à cultura do povo Guarani. Nesse processo, os chamõi (anciãos/sábios) ocupam um papel central, sendo reconhecidos como os principais guardiões do conhecimento e da memória coletiva. Atualmente, a escola conta com direção indígena e um corpo docente majoritariamente composto por professores Guarani, desempenhando um papel fundamental na valorização da identidade e no fortalecimento do vínculo das novas gerações com o território.

Para os Guarani, o território possui um significado que vai muito além da terra enquanto propriedade. A palavra “tekoha” pode ser compreendida como o lugar onde o “teko”, o modo de ser Guarani, acontece. É no território que se constroem as relações espirituais, culturais e sociais que sustentam a existência coletiva. Em meio às disputas territoriais e aos impactos históricos sofridos pelas comunidades da região oeste, os Avá-Guarani seguem reafirmando a terra como condição fundamental para a continuidade da vida e da cultura.

O território camponês como espaço de formação política

Entre os territórios de resistência camponesa visitados no oeste do Paraná, estão o Assentamento Antônio Tavares, em São Miguel do Iguaçu, o Assentamento Ander Rodolfo Henrique, em Diamante d’Oeste, e o Assentamento 16 de Maio, em Ramilândia. 

O Assentamento Antônio Tavares é uma das áreas de reforma agrária vinculadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na região. Criado após a desapropriação da antiga Fazenda Mitacoré, o território que hoje abriga dezenas de famílias assentadas, com o tempo tornou-se também um importante espaço de formação política e intelectual. 

Jair Costa Silva, assentado e liderança local, conta que o propósito sempre foi fazer do assentamento um espaço para o bem coletivo. O lugar acabou tornando-se uma importante referência na formação política e na organização da luta camponesa. “Nesses anos, representantes de muitos países passaram por aqui para estudar e entender o processo histórico da América Latina”, conta. Josy Hartmann, contadora e assentada local, relata que receber educação através das escolas do MST transformou sua trajetória. “Hoje em dia eu trabalho com a educação porque acredito que ela transforma vidas. Transformou a minha e vai transformar a de muitos outros”, afirma.

Jair Costa Silva explicou aos visitantes a importância cultural e intelectual do Assentamento Antônio Tavares para a luta camponesa. Foto: Ana Paula Soukef
Jair Costa Silva explicou aos visitantes a importância cultural e intelectual do Assentamento Antônio Tavares para a luta camponesa. Foto: Ana Paula Soukef

O sustento no Assentamento Antônio Tavares baseia-se principalmente na produção agroecológica e leiteira. Parte significativa dessa produção é organizada por meio da COOPERCAM (Cooperativa de Industrialização e Comercialização Camponesa), que atua no fortalecimento da agricultura familiar da região oeste. A cooperativa realiza a comercialização e o beneficiamento dos produtos oriundos de diferentes assentamentos, além de estabelecer parcerias com organizações e territórios. 

Já no Assentamento Ander Rodolfo Henrique, em Diamante d´Oeste, que também faz parte desta grande rede cooperativa industrial do oeste, os visitantes puderam conhecer diversas experiências agroecológicas conduzidas por famílias assentadas.

Em um dos lotes do assentamento, os agricultores  Danieli e Leandro Rohden desenvolvem um projeto de melhorias no plantio, com foco em bioinsumos. Inicialmente, eles tiveram uma experiência com grãos orgânicos, mas agora estão transitando para hortifrúti, com uma horta em mandala, e Sistema Agroflorestal (SAF). Rohden relata que, apesar de ter começado com uma mentalidade de sistemas extensivos, percebeu as dificuldades desse modelo, especialmente devido à falta de água e ao calor intenso na região — que chega a ter dez dias sem chuva em dezembro e janeiro. O agricultor conta com a assistência técnica de Alan Coutinho, agrônomo que atua no Paraná há 21 anos. Coutinho explica que a utilização de bioinsumos, como fungos (Beauveria, Trichoderma) e bactérias (Bacillus subtilis, Bacillus thuringiensis), vem sendo adotada nos assentamentos do MST para controlar pragas e doenças fúngicas ou bacterianas.

No mesmo assentamento, no lote de Rosilda e Clair Siqueira, um fomento de R$ 8 mil do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) deu origem à criação de uma agroindústria que produz doces, processa minimamente a mandioca, matura e lava vegetais e frutas. Rosilda é um exemplo de protagonismo feminino na agroecologia, liderando muitas iniciativas que promovem a geração de renda e a permanência das famílias no campo.

Rozilda e Clair Siqueira no SAF que alimenta a agroindústria do casal. Foto: Paula Vianna
Rozilda e Clair Siqueira no SAF que alimenta a agroindústria do casal. Foto: Paula Vianna

A parada final foi no Assentamento 16 de Maio, em Ramilândia,  para conhecer a experiência do Sistema Agroflorestal (SAF) desenvolvida por Selmiro Finkler. A iniciativa combina produção agrícola com recuperação ambiental e diversidade de cultivos, apresentando alternativas ao modelo de monocultura predominante na região. 

Selmiro Finkler e o orgulho de recuperar a biodiversidade de um terreno antes intoxicado pela plantação de fumo. Foto: Paula Vianna
Selmiro Finkler e o orgulho de recuperar a biodiversidade de um terreno antes intoxicado pela plantação de fumo. Foto: Paula Vianna

O assentamento, iniciado em 1998, conta atualmente com 220 famílias e está em processo de titulação há um ano e meio. Selmiro Finkler, um dos assentados, faz parte do MST há mais de 40 anos e cultiva seu SAF há quase duas décadas.  Ele também é guardião de sementes crioulas e ressalta a importância de preservar essas sementes, especialmente após ter perdido parte delas em uma seca. “Isso aqui era um plantio de fumo, e eu vim para cá na ideia de mudar. Começamos com dificuldade, falta de mudas, mas eu já tinha um pouco de experiência. Trouxe mais sementes de milho com andu no meio, feijão de porco e começamos, assim, a mudar radicalmente”, conta Finkler, com muito orgulho ao exibir uma enorme variedade de árvores de madeiras de lei totalmente adaptadas à mata Atlântica.

As visitas às comunidades integraram uma das caravanas ecológicas da Plenária da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), realizada em Foz do Iguaçu entre os dias 18 e 22 de maio. A rota, intitulada “Terra é um direito” proporcionou aos participantes, de diversas regiões do Brasil, o contato com as lutas e realidades territoriais que marcam o oeste do estado. 

A diversidade de experiências percorridas pela caravana “Terra é um Direito” revelou diferentes formas de resistência construídas por comunidades que seguem defendendo seus territórios, produzindo alimentos e buscando caminhos para o bem viver. 

Para os visitantes, o contato direto com essas realidades permitiu compreender de forma mais próxima os desafios e as potencialidades da região oeste do Paraná. Os aprendizados e reflexões dessa vivência passam agora a integrar a construção do próximo Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), que será realizado em Foz do Iguaçu, em 2027.

*Ana Paula Soukef e Paula Vianna são comunicadoras e fazem parte da Comissão de Comunicação do 5º Encontro Nacional de Agroecologia (ENA)