Nova etapa da iniciativa “Agroecologia,Território e Justiça Climática”, promovida pela ANA, ocorrerá em comunidades de cinco territórios do país
A Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) inicia, neste mês de junho, a segunda etapa da iniciativa “Agroecologia, Território e Justiça Climática”, com foco em cinco territórios, um em cada região brasileira. Os estudos vão partir de uma questão central: qual o papel da ação em rede e da agroecologia na promoção de sistemas alimentares justos e resilientes às mudanças climáticas?

A iniciativa é coordenada pelo Grupo de Trabalho (GT) Justiça Climática e Agroecologia da ANA e conta com a parceria da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), da AS-PTA – Agricultura Familiar e Agroecologia, da FASE – Solidariedade e Educação, da Associação Agroecológica Tijupá e da ANA Amazônia.
Após a primeira etapa, que promoveu um mapeamento virtual de mais de 500 experiências agroecológicas que estão enfrentando os impactos das mudanças climáticas no país, os trabalhos agora serão feitos presencialmente em comunidades rurais e urbanas. A proposta prevê a construção de um processo coletivo de levantamento de dados e de análises quantitativas e qualitativas, respeitando as especificidades de cada território.
As atividades dessa segunda etapa serão realizadas em parceria com organizações e redes de agroecologia nos seguintes territórios: na Terra Indígena Cachoeirinha – Povo Terena, no Mato Grosso do Sul; na Zona da Mata de Minas Gerais; no Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Lago Grande, no Pará; na Região Metropolitana do Recife, em Pernambuco; e em uma comunidade kilombola no bioma Pampa, no Rio Grande do Sul.
Construção coletiva

O mapeamento virtual e os estudos presenciais que agora serão realizados em escala comunitária fazem parte de uma mesma pesquisa-ação conduzida pela ANA, metodologia que orienta toda a iniciativa “Agroecologia, Território e Justiça Climática”.
Os resultados da primeira etapa, socializados na plataforma Agroecologia em Rede e no jornal “No Clima da Agroecologia”, evidenciaram que, ao mesmo tempo em que enfrentam as mudanças climáticas, as experiências agroecológicas também são atingidas por elas. Frente a isso, a segunda etapa aprofunda a investigação por meio de processos de produção de conhecimentos que prezam pela participação ativa de quem constrói a agroecologia cotidianamente.
Helena Lopes, pesquisadora da Fiocruz e integrante do GT Justiça Climática e Agroecologia, explica que a construção de inteligências coletivas são fundamentais quando pensamos em pesquisa-ação. No mapeamento, foi possível localizar variados impactos do desequilíbrio climático na vida de povos do campo, das florestas, das águas e das cidades.

O aumento da temperatura, por exemplo, foi apontado por 73% das iniciativas mapeadas, enquanto 71% identificaram mudanças no calendário de chuvas, seja por falta ou por excesso. Essas e outras mudanças tiveram impactos negativos sobre o cultivo de alimentos saudáveis: 56% das iniciativas registraram queda na produção e 48% relataram a perda de alimentos.
Além de impactos, o mapeamento também revelou soluções construídas nos territórios. “Levantamos uma série de informações sobre práticas de agroecologia que as experiências entendem como formas de enfrentar as mudanças climáticas. Agora, ir aos territórios é nossa oportunidade de entender, por exemplo, como a conservação do solo, que foi uma das principais práticas citadas, é realizada. No nível dois, queremos aprofundar as informações levantadas no mapeamento”, afirma Helena.
Diversidade de saberes
A pesquisa-ação prevê oficinas presenciais e o intercâmbio dos aprendizados entre os cinco territórios. As experiências agroecológicas envolvidas farão seus estudos por meio do Método de Análise Econômico-Ecológica de Agroecossistemas, o método Lume, desenvolvido pela AS-PTA junto a redes como a ANA e a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). A metodologia contribui na compreensão dos processos históricos nos territórios.

“O Lume foi desenvolvido para dar visibilidade a aspectos importantes da realidade das comunidades camponesas e indígenas que são ocultados ou descaracterizados por abordagens convencionais que servem ao paradigma econômico dominante. Procuramos dar centralidade ao trabalho, e não aos mercados, como no neoliberalismo”, expõe Denis Monteiro, da AS-PTA.
Com essa abordagem, a pesquisa-ação buscará compreender como as comunidades vêm fortalecendo sua capacidade de enfrentar os desafios climáticos. O método Lume incorpora contribuições da economia ecológica e da economia feminista para analisar os territórios a partir das experiências e estratégias construídas pelas próprias comunidades.
Contra as falsas soluções
Em contraposição às falsas soluções climáticas baseadas na lógica de mercado, em tecnologias padronizadas e métricas de carbono, a agroecologia propõe respostas construídas a partir de diferentes realidades. “Estamos falando de pessoas que têm uma relação muito próxima com a natureza, com grande sensibilidade para perceber mudanças ambientais”, destaca Denis.

Trabalhando com a escala comunitária, a expectativa é identificar impactos provocados pelo agronegócio, pela mineração, por grandes empreendimentos, dentre outras ameaças às experiências agroecológicas, bem como as respostas encontradas por elas nesses contextos. “As comunidades não estão passivas, elas estão sempre buscando soluções para seus desafios”, completa Denis.
Outro ponto importante é o entendimento de que o desequilíbrio climático não é apenas um problema ambiental. “A agroecologia opera numa lógica em que as mudanças climáticas são compreendidas também como um problema de desigualdade”, pontua Helena, lembrando que mulheres, populações negras, povos indígenas, quilombolas e moradores de periferias urbanas estão entre os mais vulnerabilizados em ondas de calor, enchentes, dentre outros impactos.
Justiça climática
Também é objetivo da pesquisa-ação fortalecer e qualificar a incidência das redes de agroecologia no debate público e na formulação de políticas públicas relacionadas ao clima, além de qualificar a participação em instâncias internacionais de governança, como as Conferências das Partes (COPs) das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas.

Helena lembra que a agroecologia propõe respostas baseadas na justiça climática. “As respostas ao desequilíbrio climático no planeta não podem ser controladas por grandes corporações. Embora as mudanças climáticas sejam um problema global, as soluções são diversas e desenhadas a partir dos territórios”, conclui.
[1] Texto: Gilka Resende e Marcelo Almeida.
[2] A iniciativa “Agroecologia, Território e Mudanças Climáticas” conta com o apoio do Agroecology Fund e do International Development Research Centre (IDRC).
