
A Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) vem a público manifestar absoluta solidariedade à Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), diante das recentes tentativas de intimidação e silenciamento promovidas pelo Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (SINDAG), conforme denunciado em nota da própria rede.
A RAMA constitui uma das mais antigas e respeitadas articulações de agroecologia do Brasil, reunindo organizações, movimentos e sujeitos coletivos comprometidos com a defesa das famílias agricultoras, dos territórios, da sociobiodiversidade e dos modos de vida de povos e comunidades tradicionais. Sua trajetória é marcada pela resistência ativa frente às múltiplas ameaças impostas pelo modelo de desenvolvimento hegemônico, que historicamente tem promovido a concentração de terras, a degradação ambiental e a violação de direitos. É uma entidade de referência que recebe denúncias e atua para ampliar a visibilidade das vozes e experiências das comunidades atingidas, contribuindo para que não sejam silenciadas.
O Maranhão vive um momento de recordes de violações de direitos por meio do uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos, sobretudo pela pulverização aérea de agrotóxicos por aviões e drones. Entre janeiro e março de 2026, foram registradas 222 notificações de pulverização de agrotóxicos sobre comunidades rurais, quilombolas, indígenas e assentadas no Maranhão – muitos deles com substâncias proibidas na Europa. Os casos envolveram 188 comunidades distintas, sendo que algumas delas foram atingidas mais de uma vez ao longo do trimestre.
O dado supera todo o ano de 2025, quando 122 comunidades foram afetadas. No acumulado de 2024 a 2026, 495 comunidades já foram atingidas por agrotóxicos no Maranhão, o que revela uma emergência sanitária, alimentar e de direitos humanos sem precedentes no estado.
A RAMA tem cumprido um papel fundamental na denúncia dos impactos desses venenos e das formas de aplicação que colocam em risco a saúde das populações e a integridade dos ecossistemas. Trata-se de uma atuação legítima, baseada em evidências, no diálogo com a ciência e, sobretudo, na escuta e no protagonismo dos povos do território maranhense.
Reafirmamos que a tentativa de judicialização como instrumento de coerção contra organizações da sociedade civil representa uma grave ameaça à democracia e ao direito à livre organização e expressão. Não se constrói justiça social com intimidação, nem se responde a denúncias públicas com manobras jurídicas que buscam constranger quem luta em defesa da vida.
A ANA, representando as diversas organizações, redes e movimentos que a compõem, está lado a lado com a RAMA na defesa da agroecologia como caminho para um projeto de sociedade mais justo, sustentável e solidário.
Reafirmamos nosso compromisso com a proteção dos direitos dos povos e comunidades tradicionais, agricultoras e agricultores familiares, e todas aquelas e aqueles que, cotidianamente, resistem e constroem alternativas ao modelo excludente vigente.
Seguiremos juntas e juntos, em rede, fortalecendo a agroecologia, a democracia e o Bem Viver, e lutando contra as injustiças e violações de direitos.
