O Núcleo Ecologia, Epistemologias e Promoção Emancipatória da Saúde (Neepes), vinculado à Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz) laça o filme “Relato de um Encontro de Saberes”, uma síntese do encontro homônimo realizado entre 26 e 28 de novembro de 2018, no Rio de Janeiro.

Foto: Renata Souto

Com 30 minutos de duração, o filme “Relato de um Encontro de Saberes” traz depoimentos que alinhavam o fazer de movimentos sociais e produções da academia focadas na Ecologia de Saberes e nas Epistemologias do Sul, como destaca o professor português Boaventura de Souza Santos, um dos participantes do encontro.

O filme pode ser visto na íntegra pelo link: https://youtu.be/LurGzCmnJf8

“Eu nunca vi as Epistemologias do Sul ao vivo. Já escrevi muito sobre elas, mas hoje eu vi como é que é. Isto é uma festa para nos alimentarmos de resistência, para a resistência, para lutas que estão lá fora. Não há nenhuma revolução sem baile, não há nenhuma luta sem festa”, explica Boaventura, criador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Portugal, uma das unidades de ensino parceiras do Neepes.

O encontro também discutiu sobre as ações de promoção emancipatória da saúde, a partir de um olhar plural. Para a indígena Sônia Guajajara, “pensar a saúde para além de pensar a ausência de doenças é pensar no próprio modelo que a gente está inserido”.

Além dos povos das florestas e de pesquisadores da Academia, o filme – produzido pela TV Tagarela, uma televisão de rua da comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro – dá voz também a outras identidades do campo e da cidade, como os quilombolas e moradores/as dos centros urbanos, especialmente a população negra das periferias das grandes cidades.

Considerando essas populações, o encontro de saberes teve suas discussões organizadas em quatro eixos provocadores, entre eles “compreender e enfrentar os racismos e as violências”. “Eu tive um filho assassinado pela polícia. Só depois eu fui entender que a polícia utiliza um discurso de combate às drogas, mas na verdade, o que acontece é um racismo estrutural. São jovens assassinados todos os dias por conta desse racismo. O racismo não é “mimimi”. O racismo está aí e pessoas estão sendo assassinadas por conta desse racismo”, denuncia Ana Paula Oliveira, integrante do Movimento Mães de Manguinhos

São diversas formas de viver e promover a saúde em realidades brasileiras com características étnicas, raciais, culturais, sociais e econômica muito diferentes. Por isso, olhar para outras dimensões da promoção da saúde foi a escolha da organização do encontro ao definir, além do racismo e da violência, os seguintes eixos provocadores do debate: aecologia de saberes; alimento, agroecologia e soberania alimentar; e geração e compartilhamento da vida.

Para Marina Fasanello, pesquisadora do Neepes, a estratégia adotada pelo Núcleo é uma estratégia de “curacionar”. “Essa é uma expressão que é desenvolvida pelos povos andinos e que busca superar um pensamento excessivamente lógico ocidental, integrando o sentir com o pensar, o coração com a razão, os seres humanos entre si e com a natureza”, esclarece a pesquisadora.

“Nosso trabalho na academia é conectar nossos trabalhos e saberes com as suas lutas e isso implica esse trabalho intercultural. E para esse diálogo, não apenas a linguagem científica e logocêntrica, mas as linguagens da vida – artísticas, poéticas, musicais, populares – são fundamentais”, explica Marcelo Firpo Porto, coordenador do Nepes.

Firpo esclarece também que um dos objetivos do Encontro de Saberes foi a construção da agenda do Neepes, que prevê para o final deste ano, possivelmente na semana de 25 de novembro, uma nova edição do Encontro, abordando o tema Comunidades Tradicionais em Espaços Urbanos: Interculturalidades, Resistências e (Re)Existências nas Lutas por Saúde, Dignidade e Direitos Territoriais.

O Núcleo também disponibiliza em sua página na internet (http://neepes.ensp.fiocruz.br) várias informações e produções, como o pdf do livro Saúde como Dignidade: riscos, saúde e mobilizações por justiça ambiental e 23 artigos publicados desde 2015, de autoria de pesquisadores do Neepes. Também estão sendo construídas páginas que disponibilizarão outros materiais, como cursos de pós-graduação, relatórios e materiais com relatos gráficos e poético-musicais.

No canal do youtube Neepes em Movimento existem outros vídeos com falas e reportagens sobre o Encontro de saberes. Acesse e veja: https://www.youtube.com/channel/UCyADBCOjeGwWZi0q3WGSaIg

Saiba mais – O Neepes nasce de uma longa trajetória de pesquisas e ações sintetizadas na proposição de uma promoção emancipatória da saúde. Sua proposta é desenvolver conhecimentos interdisciplinares, metodologias colaborativas sensíveis e diálogos interculturais que apoiem as lutas sociais por saúde, dignidade e direitos territoriais nas cidades, campos, florestas e águas.

O Neepes foi criado pela portaria GD-ENSP 060/2018 de 11/12/2018. Funciona como um Núcleo com caráter interdepartamental e interunidades que envolve parcerias com pesquisadores de três departamentos da ENSP (CESTEH, DENSP e DCS), outras unidades da Fiocruz (EPSJV, Fiocruz PE e Fiocruz CE), além de cooperações nacionais e internacionais, com destaque para o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, criado pelo cientista social Boaventura de Souza Santos.

O Neepes possui como principal base empírica de pesquisa o projeto ´Mapa de Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil`, iniciado em 2008 e que possui cerca de 600 casos emblemáticos de conflitos no país. Também atua em parceria com o Laboratório Territorial de Manguinhos (LTM), iniciado em 2003 e que atua em territórios de favelas no Rio de Janeiro. Foi junto ao LTM que o conceito de promoção emancipatória da saúde começou a ser elaborado no contexto urbano, e com o Neepes a proposta foi ampliada para as lutas dos povos e populações do campo, florestas e águas.

 

 

 

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