carta araripePor Najar Tubino,

Ouricuri (PE) – Araripe em tupi guarani significa “onde o dia começa primeiro”, traduz a altitude da serra, mas hoje em dia o grande significado no sertão é a conscientização de agricultores e agricultoras, a disseminação do conhecimento da agricultura camponesa e a capacidade de enfrentar a seca, com a aplicação de tecnologias de convivência com o semiárido. Esta história também é a linha do tempo da Caatinga, a organização mais antiga que atua na região, quase 30 anos de dedicação e 10 mil cisternas de placa construídas. A cisterna é uma novidade histórica no semiárido. A transformação é visível, porque onde tem mais de uma cisterna, incluindo a de produção, a paisagem é totalmente diferente.

Para citar um exemplo: a Agrovila Nova Esperança, onde está localizada a Escola Municipal Maria do Socorro de Castro, onde vivem 47 famílias. A professora Izabel de Jesus Oliveira transformou a sua trajetória de vida, contando dois assentamentos – eles saíram de um lugar para construção de uma barragem-, que inclui o voluntariado para se dedicar a educação contextualizada das crianças, na força para desenvolver o projeto. É uma escola rural que virou referência nacional, pela didática aplicada, pela participação das crianças, das famílias, por ter um sistema agroflorestal e um viveiro dentro do quintal da escola. E depois de passar por ameaças de fechamento, de receber professor indicado pelo prefeito. O coronelismo na região continua.

Uma luta em 30 anos

Em Ouricuri 12 mil estabelecimentos rurais são da agricultura familiar, dos quase 30 mil nos 11 municípios da Chapada do Araripe. Os sistemas produtivos são muito diversos, envolvem todo tipo de agricultura – milho, feijão e mandioca-, produção leiteira e pecuária em geral. Mas nas últimas três décadas a agroecologia foi crescendo num movimento organizado, onde os agricultores e agricultoras foram capacitados, aprenderam as tecnologias e trocaram experiências, realizaram intercâmbios, saíram para outros estados contando suas trajetórias e enfim, conseguem viver com uma produção diversificada, que respeita o semiárido, é resistente mesmo nos períodos de seca e reforça os laços familiares e da comunidade.

A linha do tempo que foi discutida durante a Caravana Agroecológica da Chapada do Araripe mostrou a evolução da mobilização desde a formação das comunidades eclesiais de base da Igreja Católica e das Ligas Camponesas. O Centro de Tecnologias Alternativas criado em vários estados brasileiros a partir da década de 1980 deu origem a Caatinga, uma das organizações integradas na ASA, mas foi o local onde as tecnologias foram testadas, antes da execução nos estabelecimentos rurais. A Lagoa do Urubu, a 13 km de Ouricuri, onde foram realizados os debates da Caravana servia de referência, onde as famílias começaram a conhecer o funcionamento das primeiras cisternas. Como lembra Giovanne Xenofonte, da Caatinga:

“- As pessoas chegavam a cavalo, de bicicleta, a pé, não tinha luz. Foi um tempo difícil, que hoje em dia nós temos que repensar isso, para enfrentarmos o atual momento. Nós mudamos a ideia do combate a seca, para a convivência com o semiárido. Esta ideia nós conseguimos enraizar na região. Passamos a ser sujeitos da nossa história, para mim este é o maior avanço nesses 30 anos de luta. Tanto que o programa que nós lançamos é Programa de Mobilização Social de Convivência com o Semiárido. A cisterna era o mote.”

Uma nova concepção da economia

Giovanne cita a história de uma senhora que expressou a trajetória da mobilização: eu não sabia vender e não sabia comprar. Com as políticas públicas implantadas, no caso o Bolsa Família, ela aprendeu a comprar, e com a capacitação e a transformação na produção, aprendeu a vender. Maria Emilia Pacheco, presidente do CONSEA também estava presente na Caravana Agroecológica:

“- O que ocorre aqui na região e no semiárido em geral é uma nova concepção da economia, uma nova forma de intercâmbio, onde as várias formas de saber e de conhecimento são trocadas. As pessoas se mobilizam pela prática, pelo aprendizado, pela troca de sementes, de mudas, de bens. Isso tem a ver com a agroecologia e com a economia feminista, onde a economia passa a ter uma visão de reciprocidade, de cooperação, de aprofundamento das relações familiares e da comunidade”.

As crianças na Agrovila Nova Esperança participam da prática agroecológica, tem as suas próprias mudas plantadas nos quintais. Escrevem sobre o que estão fazendo, desenham as atividades. Como a Fernanda, de oito anos, fez um livro sobre a importância da mudança da visão dos sistemas produtivos, baseada no que aprendeu na escola e com o pai e a mãe em casa, que adotaram a agroecologia há muitos anos. Hoje Adão de Oliveira tem o sistema agroflorestal mais antigo da agrovila, junto com a esposa e os dois filhos produzem sabonetes com as plantas, polpa de frutas e doces. Também José Nilton, presidente da associação da agrovila tem um sistema agroflorestal diversificado, com muitas frutíferas, que ninguém consegue imaginar possa existir no semiárido. A não ser com irrigação e agrotóxicos, como o caso de Petrolina e Limoeiro do Norte.

Demora 10 anos, no caso de José Nilton, para transformar um solo erodido, raso, pobre, arenoso, em algo verde, com uma cobertura de folhas secas, que ele nunca deixou de colocar no quintal. Na mesa dessas famílias não se compra legumes e verduras, ovo, frutas, ou seja, ninguém vai comprar na feira. Ao contrário, eles comercializam de todas as formas possíveis. A mobilização social não é somente um caso de consciência política, mas é assumir uma nova visão econômica na realidade, praticá-la e passar adiante.

O coronelismo não morreu

E aí chegamos ao ano de 2016, quando os cortes do MDA colocam em pânico muitas das organizações sociais, que estão executando chamadas públicas de ATER. Os pagamentos previstos para novembro de 2015, de trabalho já realizado, não foram efetuados e não tem nada para serem pagos. Há um cerco contra as atividades do MDA e também contra a agricultura familiar. Os cortes atingem o fomento e a assistência técnica, projetos estratégicos para avançar na mobilização social do campo. Por outro lado o Ministério da Agricultura cria uma secretaria de mobilização social, para embasar o discurso do agronegócio de criação da nova classe média rural. Baseado na especialização da atividade, das cadeias produtivas por território, na compra de insumos de fora, incluindo agrotóxicos e fertilizantes químicos. Ou seja, querem criar o “agronegocinho” como é tratado entre as organizações sociais. O Instituto Nacional do Semiárido está para ser incluído em outro órgão – Instituto Brasileiro de Biomas- e vai perder a condição de instituto federal e se transformar em uma coordenação.

Maria Emilia Pacheco considera que o Brasil está vivendo um momento sequíssimo na história, onde o cerco contra a agricultura familiar e camponesa cada vez aperta mais, isso se reflete na estratégia de ir tirando as atividades do MDA, as verbas, e diluindo entre os outros ministérios. Uma política assustadora, para quem vem avançando nos últimos anos em conhecimento, tecnologias que servem de exemplo para o mundo, da convivência com o semiárido, da destruição da indústria da seca. Um movimento social rural que é totalmente contrário aos interesses das elites econômicas do Brasil. Para encerrar um história sobre coronelismo: um dos agrossistemas analisados no trabalho da ANA envolve uma mulher, que vive em uma terra, onde a documentação está nas mãos de um parente. Quando teve um filho, recebeu auxílio maternidade, e foi obrigada a dar metade para o tio, por conta do uso da terra, que é uma herança familiar.

Créditos da foto: Reprodução

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