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Carta de Maria Farinha – Pernambuco

seminario educacaoO I Seminário Nacional de Educação em Agroecologia – I SNEA reuniu em Paulista-PE, 170educadores(as) e educandos(as) de todas as regiões brasileiras para discutir princípios e diretrizes para a Educação em Agroecologia. O Seminário foi motivado pela necessidade de realização de uma reflexão crítica sobre a trajetória e as perspectivas das iniciativas de educação formal nesse campo do conhecimento.

A criação de cursos e disciplinas em Agroecologia (ou com ênfase em Agroecologia) em todos os níveis educacionais nos últimos anos resulta de um longo processo de luta de movimentos e organizações sociaispopulares e estudantisque defendem a democratização do mundo rural fundamentada no princípio da solidariedade, contribuindo para a construção de novas formas de relacionamento entre sociedade e natureza. Esses avanços quantitativos também foram motivados pela iniciativa do Estado. Estes aspectos nos apresentam novos desafios relacionados à qualidade dos processos educacionais em construção.

Muitas destas iniciativas acontecem em instituições populares ligadas aos movimentos sociais comprometidos com uma educação do campo e com novas abordagens metodológicas, mas necessitam de apoio e reconhecimento. Outras iniciativas se desenvolvem como espaços de resistência e inovação, em instituições de ensino moldadas pelo enfoque pedagógico convencional, caracterizado pelo estilo bancário e pelo paradigma científico-tecnológico da Revolução Verde.

A mudança dessa realidade cobra transformações mais abrangentes e profundas no sistema educacional, sobretudo ao proporcionar que a educação em todos os níveis se fundamente no exercício da inter e transdisciplinaridade e no diálogo entre os saberes científico-tecnológicos e as sabedorias populares. Isso implica a necessidade de que as instituições de ensino construam e executem seus projetos político-pedagógicos com a ativa participação das organizações e movimentosda agricultura familiar, camponesa,dos povos e comunidades tradicionais, urbanas e peri-urbanas. Implica também a reformulação dos sistemas metodológicos e avaliativos internos e externos às instituições de ensino e dos(as) educadores(as),de forma que os princípios para a construção do conhecimento agroecológico sejam reconhecidos e valorizados.

Constatamos que a formação de Núcleos de Estudo e Extensão em Agroecologia são iniciativas coerentes com essa perspectiva, pois contribuem para superar a compartimentalização funcional e institucional entre as práticas de extensão, ensino e pesquisa concebidas a partir dos princípios do difusionismo tecnológico e de fundamentos epistemológicos que negam a validade de outros conhecimentos que não os produzidos pela ciência institucionalizada. Fortalecer, multiplicar e articular esse tipo inovação institucional nas práticas educacionais é condição determinante para o avanço da Agroecologia em nossa sociedade.

No momento em que o Governo brasileiro anuncia o I Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, é necessário que o sistema educacional contribuacom a formação de cidadãos e cidadãs comprometidos com valores éticos relacionados à democracia, à equidade e à sustentabilidade.O aprimoramentodos processos de internalização dessa perspectiva para a Educação em Agroecologia em todos os níveis educacionais, cobra a criação de espaços permanentes de interlocução entre os Ministérios da Educação,da Ciência, Tecnologia e Inovação e outros Ministériose instâncias governamentais eas organizações e movimentos da sociedade civil do campo agroecológico. Esses espaços deverão se incumbir de elaborare monitorar ações e programas de secretarias e órgãos desses ministérios, procurando dar coerência entre os mesmos e sintonizá-los com os objetivos e diretrizes da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica.

O reconhecimento profissional dos egressos formados em cursos técnicos, tecnológicos e bacharelados em Agroecologia é uma necessidade urgente.

Nosso seminário constata que a riqueza de práticas educativas que emergem em todo o Brasil protagonizadas pordocentes e discentes em interação com organizações da sociedade civil,iluminam caminhos promissores para internalização do paradigma agroecológico na Educação. Assumimos, portanto, o conjunto de princípios e diretrizes sistematizado a partir da interpretação crítica dessas práticas como um referencial orientador do diálogo que ora propomos aos governos visando o aperfeiçoamento e a generalização das mesmas.

Paulista-PE, 05 de julho de 2013.

Participantes do I Seminário Nacional de Educação em Agroecologia

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