Posicionamento do GT de Mulheres da ANA sobre o 8 de março de 2022

Cerca de 100 mulheres, entre agricultoras, técnicas, estudantes, militantes do movimento agroecológico de todas as regiões do país nos encontramos na reunião do Grupo de Trabalho de Mulheres da ANA para compartilhar nossas percepções sobre a conjuntura e o que está sendo preparado para o 8 de março. A reunião aconteceu no dia 23 de fevereiro de 2022 como parte da programação de planejamento do mês de luta das mulheres.

A percepção é de uma conjuntura difícil. A pandemia da Covid-19 acirrou desigualdades já existentes. Nas comunidades estamos convivendo com muitas companheiras em depressão, se sentindo cansadas e sobrecarregadas, que vivenciaram muitas perdas. A violência doméstica, os feminicídios e o racismo aumentaram, se manifestam com mais crueldade e tocam a vida de meninas e adolescentes. Ainda que se fale mais sobre a violência contra as mulheres, ainda são invisíveis suas manifestações nas comunidades rurais e estas muitas vezes se cruzam com a violência do capital sobre os territórios, em especial o agronegócio e a mineração que cercam, destroem solo, plantas e animais, secam e contaminam as águas.

Esta ofensiva também se manifesta através de novas formas como as enormes torres de energia eólica que tomam as terras; a privatização de unidades de conservação, que se sobrepõe sobre territórios tradicionais em antigos conflitos agrários não resolvidos; o controle de territórios para a venda de créditos de carbono. A resistência existe frente a cada uma destas ofensivas, com mulheres e comunidades tradicionais à frente, mas às vezes nos sentimos sozinhas e a solidariedade é cada vez mais urgente e necessária. As ofensivas do capital igualmente tomam forma nas tentativas de captura corporativa da agroecologia, da luta das mulheres e mesmo do 8 de março.

As condições de vida também estão afetadas pela carestia, o aumento do preço dos alimentos, do gás de cozinha e pela fome. As mudanças climáticas se fazem sentir na estiagem prolongada e nas chuvas intensas e concentradas.

Enfrentamos todos estes problemas em meio ao desmonte de políticas públicas de fortalecimento da agricultura familiar e da agroecologia, como é o caso da paralisia das compras públicas, além do fim de programas, privatizações e dificuldades de acesso a políticas de saúde, saneamento, previdência. Uma série de projetos de lei que destroem a possibilidade de fazer agroecologia encontra-se em votação, como os referentes à liberação dos agrotóxicos, grilagem, mineração. E segue o processo de votação no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o marco temporal das terras indígenas. O que vemos é toda uma arquitetura legal de destruição que nos dará bastante trabalho para recompor.

No entanto, durante a pandemia nos reinventamos, criando circuitos de distribuição de alimentos pela comercialização direta e doação, organizados com base na solidariedade, que questionaram imposições de cultura alimentar e logísticas empresariais. Organizamo-nos politizando e compartilhando o cuidado e ficou mais evidente como nós mulheres cuidamos e sustentamos os bens comuns.  Nossos aprendizados deste período devem ser mobilizados para repensar mais amplamente as políticas que envolvem o cuidado da natureza e a distribuição de alimentos.

Em 2022, o cenário eleitoral nos dá esperança e temor. Esperança de que possamos nos organizar em comitês locais, fazendo campanha e ao mesmo tempo criando condições para que as propostas que defendemos sejam postas em prática em um novo governo. Esperança por fazer campanha para candidaturas comprometidas com o movimento agroecológico no executivo e legislativo, em especial mulheres negras, indígenas, trans, rurais, periféricas e que campanhas fortes sejam uma resposta aos ataques que as companheiras eleitas vêm sofrendo. A violência política, a violência do agronegócio e do bolsonarismo tentando se enraizar nas comunidades, nos preocupa.

Frente a tudo isto fortalecemos nossa organização desde os nossos territórios e articuladas nacionalmente. Neste 8 de março muitas atividades serão organizadas e queremos reunir informações e imagens do que aconteceu para mostrar nossas resistências sintonia em torno à consigna “Pela Vida das Mulheres, Bolsonaro Nunca Mais”: por um Brasil sem machismo, racismo e fome”!

Sem feminismo não há agroecologia!

Com racismo não há agroecologia!

*No vídeo, Sarah Luiza Moreira, do núcleo executivo da ANA e integrante do GT de Mulheres

*Foto do III Encontro Nacional de Agroecologia

*Síntese da reunião ampliada do GT Mulheres da ANA elaborada por Miriam Nobre

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