Vídeos condecorados pelo Prêmio #AHistóriaQueEuCultivo apresentam vozes de diferentes gerações em defesa da agrobiodiversidade

A agroecologia é viva. E os conhecimentos agroecológicos, repassados, transformados e multiplicados de geração em geração, são fundamentais para a preservação da biodiversidade e para o combate à erosão da diversidade agrícola e alimentar¹. Além dos cinco vídeos vencedores do Prêmio #AHistóriaQueEuCultivo, um de cada região do Brasil, o concurso, idealizado pelo Grupo de Trabalho (GT) Biodiversidade da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), também condecorou 15 produções na categoria “Histórias Locais”. Algumas trazem relatos relacionados às juventudes, que muitas vezes enfrentam entraves para permanecer em seus territórios. Outras registraram as vozes dos “mais velhos”, fontes de inspiração e sabedoria.

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Lourdes Laureano, da Articulação Pacari Raizeiras do Cerrado e do GT Biodiversidade da ANA, explica que a passagem de conhecimentos entre gerações na agroecologia também depende da garantia dos direitos territoriais, assim como do livre acesso e uso da biodiversidade nos diversos biomas do país. “Nós reconhecemos a natureza, de onde provém tudo que necessitamos para viver e resistir, por meio dos nossos conhecimentos, que herdamos, que produzimos na nossa prática diária, tanto na agricultura como no manejo dos recursos da biodiversidade, na partilha das nossas sementes, nas nossas celebrações comunitárias, enfim, nossos conhecimentos não têm preço, mas possuem valor coletivo”, ressalta.  

O campo é o meu lugar

Anderson Severino, da Glória do Goitá, Pernambuco, queria deixar o campo e ir para a cidade grande, mas mudou de ideia quando a agroecologia surgiu em sua vida, em 2017. Uma de suas professoras levou sua turma para conhecer o trabalho do Serviço de Tecnologia Alternativa (Serta). Após esse primeiro contato, seu interesse pela agricultura só aumentou, tanto que ele ingressou em um curso técnico em agroecologia. Hoje, o jovem busca implantar tecnologias sociais em seu sítio. “Ser agricultor para mim é o maior respeito, é carregar a natureza dentro do peito”, declama Anderson. Ele trabalha para transformar sua terra de um hectare em uma unidade produtiva. Com isso, pretende produzir mais alimentos em pouco espaço, aproveitando os bens oferecidos pela natureza.

Luana Rockenbach, a Luana Terra, também optou por seguir os passos de sua família. Ela, que vive em Itapiranga, Santa Catarina, cultiva sementes de alho crioulo guardadas há três gerações. Foi sua avó que a ensinou como preservá-las e compartilhá-las. Luana ressalta: “A única forma de garantir que nós vamos ter as sementes é que mais pessoas também as plantem”. Nesse sentido, a agricultora defende as feiras de trocas e as redes de compartilhamento de sementes crioulas como cruciais para a soberania alimentar e a ampliação da biodiversidade. No vídeo, ela relata como seu pai conseguiu recuperar as sementes de alho crioulo, que certa vez quase se perderam.

Sementes e árvores

Maria ainda é uma criança, mas tem aprendido bastante sobre plantas medicinais. Em vídeo enviado ao Prêmio, ela aparece à mesa junto de seus familiares Aparecida e Joaquim, que são irmãos. Os três integram uma família ampla de agricultoras e agricultores familiares de Sem Peixe, Minas Gerais. Lá cultivam feijões, de várias cores e sabores, milho, amendoim, dentre outras variedades de sementes crioulas. A família participa de uma associação de agricultura familiar da região e integra a Escola Família Agrícola de Camões. A diversidade sempre a rodeou, seja nas variedades de alimentos que cultiva, seja pelo envolvimento com movimentos sociais. Imersa nesse cotidiano, Maria, uma sementinha da agricultura familiar, terá a possibilidade de passar para frente seus saberes, sementes e mudas. 

Os conhecimentos compartilhados de geração em geração também foram importantes para  Josefa Santos de Jesus, de Simão Dias, Sergipe. Ela conta que aprendeu a cultivar sementes crioulas com seus pais e avós. A agricultora, que participa da Rede Sergipana de Agroecologia (ReSeA) e da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) pontua que elas lhe garantem autonomia e alimentos saudáveis: “Quando você guarda, você não perde e ainda sabe o que está comendo”.

O valor que Josefa atribui às sementes também se relaciona às lembranças de suas vivências junto a familiares e à vizinhança. Em seu vídeo, ela demonstra preocupação e, ao mesmo tempo, empenho em deixar saberes para as futuras gerações. É que antes de uma árvore, existiu uma semente. “Eu penso como é que fica sem nós ter sombra para esse chão?”, Josefa declama uma poesia.

Coletividade para resistir

No Apodi, Rio Grande do Norte, outro agricultor condecorado pelo Prêmio também preserva o conhecimento repassado por sua família: Golinha. Ele cultiva sementes crioulas há mais de 50 anos. Aprendeu com seu pai a selecionar a semente correta para preservar sua qualidade e manter seu poder de germinação. São pelo menos 600 espécies numa Casa de Sementes que funciona em sua própria residência, estando a serviço de toda sua comunidade.

Golinha vive no Assentamento Tabuleiro Grande, fruto da luta de moradoras e moradores de Sítio do Góis junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), à Comissão Pastoral da Terra (CPT) e ao Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Apodi (STTR). Hoje, ele e pelo menos 60 famílias resistem a projetos de fruticultura irrigada, que impactam a região com agrotóxicos e sementes transgênicas. “Faço um pedido a você, escute o que eu digo, olhe e preste atenção, se quer viver mais uns dias, deixe o veneno de mão”, diz o agricultor, que, assim como outros guardiões e guardiãs da agrobiodiversidade, abraça a missão de garantir comida de verdade e saúde à população.

O Prêmio #AHistóriaQueEuCultivo reuniu, condecorou e está fazendo circular vídeos de todas as regiões do Brasil. O concurso, uma ação em favor da comunicação e da cultura agroecológica, prestou homenagem à Emília Alves Manduca (em memória), animadora de sementes crioulas no Mato Grosso. A homenageada teve um papel importante na valorização dos conhecimentos na agricultura, ajudando, inclusive, a criar formas de viabilizar a educação de jovens e adultos no campo.

[1] Em “Biodiversidade: Bens Comuns, Soberania Alimentar e Territorial dos povos do Brasil”, na Carta Política do IV Encontro Nacional de Agroecologia (ENA).

[2] Confira mais vídeos condecorados pelo Prêmio aqui.

[3] Texto: Gilka Resende e Luiza Cilente.

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