Cinco iniciativas, uma de cada região do país, receberão como prêmio a participação em intercâmbios agroecológicos. Outros relatos em vídeo, feitos por quem cuida da agrobiodiversidade, também foram condecorados

O Grupo de Trabalho (GT) Biodiversidade da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) divulga hoje (19) o resultado final do Prêmio #AHistóriaQueEuCultivo, voltado para guardiãs e guardiões da agrobiodiversidade. Foram recebidos mais de 115 vídeos, dentre os quais cinco, um de cada região do Brasil, saíram vencedores. As iniciativas premiadas vão participar de intercâmbios agroecológicos. Os escolhidos são: “Rede de Troca de Sementes Crioulas de Mato Grosso”, do Centro-Oeste; “Minha galinha dourada”, do Nordeste; “Minha sustentabilidade no meu quilombo”, do Norte; “Diversidade é felicidade com a guardiã Neuza Benevides”, do Sudeste; e “Alimentos saudáveis: preservação da vida”, do Sul.

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Os intercâmbios entre as pessoas e os grupos ganhadores apenas vão ocorrer quando houver segurança em relação à pandemia, já que envolvem viagens e deslocamentos. “Queremos conectar experiências e iniciativas de esperança, de cuidado com a biodiversidade e a saúde, espalhadas pelo Brasil, valorizando narrativas de camponesas e camponeses, agricultoras e agricultores familiares, de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Diante de tanta dor e morte, o Prêmio traz algum conforto ao anunciar projetos que promovem a vida”, expõe Naiara Bittencourt, do GT Biodiversidade da ANA, solidarizando-se com as vítimas da Covid 19.

Lançado em outubro de 2020 e em sua 1ª edição, o Prêmio colecionou histórias que mostram várias faces da agroecologia. Mais que compartilhar informações sobre como preservar a natureza, os vídeos enviados por pessoas e grupos de todo Brasil demonstram que os seres humanos são parte dela. Muitos deixam evidente que os modos de vida de guardiãs e guardiões da agrobiodiversidade, ao cuidar do patrimônio genético alimentar, dos territórios, das águas, cultivando comida de verdade, são fundamentais para a saúde e sobrevivência de toda a sociedade.

Histórias Locais

Foram escolhidos 15 vídeos na categoria “Histórias Locais”, que serão editados e ganharão trilha sonora, efeitos visuais, dentre outros elementos para que se destaquem ainda mais sua beleza e força política. Podendo ser feitos de modo caseiro com celulares, câmeras ou computadores, todas as produções têm duração de até cinco minutos, assim como determinou o regulamento do Prêmio.

Os vídeos ganhadores na categoria são: “A experiência da família camponesa Therezinha e Domingos”; “A nossa semente tem história”; “Alho crioulo”; “As sementes da Paixão”; “As sementes que brotam de geração em geração: dos avós à neta”; “Criação de porco caipira”; “Golinha: guardião de sementes e histórias”; “Hortiguardiões da Associação para o Desenvolvimento da Agroecologia (Aopa)”; “Marlene Pereira: guardiã da galinha de capoeira”; “Militar as sementes tradicionais”; “O campo é o meu lugar”; “Semente cabocla do Bem Viver”; “Sementes da Paixão de Lita: guardiã de raças nativas”; “Sementes nativas do Cerrado: história de uma raizeira de Goiás”; e “Ser guardiã de sementes é contribuir para que as pessoas tenham mais saúde!”.

Prêmio recebeu vídeos de todas as regiões do país.

Para se chegar ao resultado final do Prêmio, o GT Biodiversidade da ANA contou com o apoio de pessoas ligadas à agroecologia, à cultura e à comunicação. “Todas as histórias são meritórias de premiação. Houve um compromisso, uma dedicação. As mensagens são o centro nos vídeos, que mostram pessoas falando com espontaneidade sobre suas vidas, tendo orgulho do seu trabalho. Elas têm um envolvimento profundo com tudo que dizem e fazem. São falas do coração que podem despertar a vontade de mais gente gravar sua história, de multiplicar conhecimentos”, diz o documentarista Beto Novaes, que integrou a comissão de premiação.

História Coletiva

Por meio das histórias ganhadoras, será elaborada uma “História Coletiva”. A ideia é ter um vídeo que reúna trechos dos relatos recebidos, trazendo um olhar panorâmico sobre a defesa do patrimônio genético alimentar no Brasil a partir das vozes e rostos de seus povos. Além disso, quem participou do concurso receberá um certificado emitido pelo GT Biodiversidade da ANA. Também serão emitidas menções honrosas para histórias que registram a recuperação, a conservação e a multiplicação de variedades de alimentos e sementes, passando suas práticas e saberes para novas gerações.

Segundo Beto, após a seleção, o principal desafio agora é transformar toda a produção recebida pelo Prêmio em instrumento de debate crítico. “É importante fazer chegar as mensagens dos vídeos nos vários movimentos sociais, nas escolas, nas igrejas, nas associações, mostrando estar em curso um modelo de agricultura que produz alimentos, preserva a vida, a saúde e o meio ambiente. Precisamos de mais adeptos da agroecologia”, reforça o pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ao defender um processo de “educação pelas imagens”.

O Prêmio

Qual história você cultiva? A partir da pergunta, o Prêmio se voltou para guardiãs e guardiões da agrobiodiversidade. As inscrições ficaram abertas entre 16 de outubro e 20 de dezembro de 2020, sendo recebidos 33 vídeos do Nordeste; 33 do Sudeste; 18 do Norte; 17 do Sul; e 14 do Centro-Oeste. A iniciativa prestou homenagem à Emília Alves Manduca (em memória), animadora de sementes crioulas no Mato Grosso. A cada semente que ela catalogava, guardava e trocava em feiras e encontros agroecológicos, também semeava sabedoria.

Emília Alves Manduca (em memória). (Foto: Andrés Pasquis/GIAS)

“As histórias foram contadas por quem as vivencia, o que cria uma relação direta com quem vai assistir aos vídeos. Elas resistem à expansão de um modelo predatório de agricultura que, ao degradar a natureza, favorece, inclusive, a disseminação de pandemias. No momento, estamos pensando em vários desdobramentos do Prêmio. Mas o primeiro deles é o de reconhecer o valor das contribuições recebidas”, conclui Naiara, que também integra a Terra de Direitos.

Premiados por região

Norte – O protagonista da história vencedora pela região Norte é Francisco Edivaldo Mendes Pinheiro, do Quilombo de Pedras Negras, de São Francisco de Guaporé, em Rondônia. Ele fala sobre a realidade da sua comunidade e compartilha sabedorias sobre trabalho com a castanha.

Nordeste – Maria do Socorro Cavalcante, de Boqueirão, na Paraíba, contou a história vencedora pela região Nordeste. “Quando casei ganhei de minha mãe uma galinha dourada. Até os dias atuais tenho de sua descendência no meu rebanho, junto com outras que fui adquirindo das vizinhas”, relata.

Sul – A luta de uma família indígena por alimentação saudável é a história vencedora pela região Sul. “Carrego no meu histórico a força de resistir e de proteger as sementes originais de antepassados”, conta Sebastião Mário Alves, da Terra Indígena Pinhalzinho, em Tomazina, no Paraná.

Sudeste – A história vencedora pela região Sudeste chegou de Guapimirim, no Rio de Janeiro, e apresenta conhecimentos sobre sementes crioulas, produção de mudas e plantios agroflorestais. “A natureza nos ensina”, diz a agricultora Neuza Benevides, que cuida da biodiversidade com carinho.

Centro-Oeste – A história da Rede de Troca de Sementes Crioulas de Mato Grosso foi a vencedora pela região Centro-Oeste. Agricultoras familiares do Grupo de Intercâmbio em Agroecologia (Gias) falam no vídeo, em especial, sobre o papel das mulheres na conservação da agrobiodiversidade.

*Texto: Gilka Resende. Edição: Lizely Borges.

*Baixe documento com o resultado completo.

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