Por Eduardo Sá, da Articulação Nacional de Agroecologia para a Mídia Ninja

A arte e a cultura sempre estiveram presentes nos meios populares rurais e periféricos do Brasil, e de algumas décadas para cá o movimento agroecológico as encampou entre suas bandeiras de luta. Esse processo continua avançando nos encontros e atividades, mas ainda encontra algumas dificuldades em relação à compreensão da sua importância. Um dos principais contribuidores nessa resistência, é o cantador Sebastião Augusto Estevão, de 45 anos, mais conhecido como Tião Farinhada, da região da zona da mata mineira. Ele é um dos principais animadores do movimento e participa com a sua viola em eventos dentro e fora do país.

Atualmente, mora em Manhumirim (MG), na região do Caparaó, onde trabalha com a pauta quilombola e continua vinculado aos diversos movimentos sociais pelos quais lutou a vida inteira. Na entrevista à Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), ele conta como foi difícil conscientizar os movimentos sociais sobre o valor da música, espiritualidade e da arte para o nosso povo. Aos poucos foi levando as músicas e a alegria cantadas nas comunidades para dentro do movimento, que cada vez mais valoriza as intervenções artísticas e culturais  dentro das suas programações e atos políticos. Segundo ele, que também é agricultor e sempre trabalhou em contato com a terra, a luta política é feita principalmente por meio da cultura do nosso povo. 

Foto: arquivo pessoal

Como se deu sua aproximação com os movimentos da agricultura familiar?

Minha trajetória de militância vem desde os anos 1990, a partir das Comunidades Eclesiais de Base (CEB) e grupos de jovens, como a Pastoral da Juventude Rural (PJR). Nesses espaços, discutíamos a identidade do jovem camponês, e temas como a terra e a vida do jovem da roça. Nos cadernos de formação sempre vinha no questionário se éramos sem terra, pequeno agricultor etc. Não havia ainda quilombola. Buscar a identidade das pessoas no seu território é uma coisa mais nova. Tanto é que nos primeiros programas de políticas públicas, mesmo no governo Lula, tínhamos que brigar para incluir os nomes dos povos para dialogar corretamente com eles. 

Venho de uma família de negros sem terra. Nasci em Divino (MG), onde meu pai trabalhava como “meeiro” nas lavouras de café, arroz, feijão etc. Ele tinha que dar a terça (⅓ da produção) da lavoura para o patrão. Depois passei por três municípios no entorno até chegar a Espera Feliz, onde meu pai morou ainda criança. Ali iniciei esse trabalho com os jovens e me sindicalizei, pois era uma espaço de formação já que não tinha nenhum técnico ou acadêmico. Minha formação se deu nesses espaços de movimento popular, onde aprendemos a ler a realidade. Começamos a questionar os pacotes dos chamados “remédios para as lavouras”, então fizemos a Campanha em Defesa da Vida e do Meio Ambiente e a discutir que não queríamos venenos. Como as terras eram dos patrões, era muito difícil, mas resistimos a ponto deles não comprarem o Baysiston (agrotóxico da empresa Bayer) para a produção de café. Conseguimos que todos os outros meeiros não usassem esse agrotóxico. Já havia trabalhado com outros venenos, como Roundup, meu irmão já havia se intoxicado e havia pessoas envenenadas e morrendo. A luta começou com os movimentos, como o Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata (CTA-ZM), que já tinha uma relação com o movimento sindical. Ali começou a discussão da agricultura alternativa, porque ainda não havia a palavra agroecologia até o final dos anos 1990.  

O movimento local começou a plantar um milho crioulo, que já está na minha família há mais de 35 anos, e fizemos campos de sementes onde havia formação e sindicalização. Botei a juventude nas escolinhas sindicais, a PJR e a igreja assumiam pouca coisa, porque tinham um posicionamento menos radical e menos subversivo. Em 1996, fui candidato a vereador com aprovação das comunidades e ganhei dos filhos de três coronéis, que eram candidatos. Eles se uniram com mais dois – um deles no último mandato antes de se aposentar e outro indo para o terceiro –  e lançaram um para me destruir. Tive 76 votos e impedi que um deles se reelegesse, e ele mandou embora os meeiros que votaram em mim sem direito a nada. Hoje, sou uma liderança, mas já causei muito problema, inclusive para minha família, hoje minha mãe com 86 anos nem gosta que fale nisso. Sofremos muito nesse processo em defesa da agricultura familiar, dei minha vida a esse movimento mas nunca tive a liberação sindical. 

Toda semana reunião e eventos, finais de semana viajando, discutia as feiras, a marca dos produtos como o espaço Sítio Mineiro. Começamos com essa experiência de comercialização em Belo Horizonte, no governo do Patrus Ananias (PT), no Armazém da Roça, a gente fazia a Feira da Reforma Agrária com o MST e outros movimentos. Fazíamos negociação com Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária]  e outros órgãos, e tinha um mercado em Muriaé, onde funcionava o Polo Sindical da Zona da Mata. Em 2000, houve um racha no movimento sindical, o Patrus não era mais prefeito e o seu sucessor não sustentou o Armazém. A Associação se dividiu em dois grupos e eu e meus irmãos, que estávamos sendo ameaçados, não fomos para o conflito direto, e mudamos de região para terra de meeiro, mas com o patrão morando em São Paulo sem aquela perseguição. Todos do movimento de resistência tinham dificuldade de trabalhar nas terras dos fazendeiros. Nessa época, coordenava a Juventude Estadual e Nacional, ia à Brasília (DF), Grito da Terra, etc. Hoje temos crédito para a juventude na agroecologia e vários programas, como o Jovem Saber, que é uma referência de alfabetização de jovens e adultos para o mundo. 

Até agora você só falou da militância, mas onde entra o seu viés artístico e cultural dentro dessa resistência que lhe tornou uma referência no movimento?

Meus amigos do movimento acham que sempre fui só cantador, mas a minha família mantém culturas tradicionais. Nós éramos muitos irmãos e todo batizado lá em casa era festa com muita comida. Meus tios todos são sanfoneiros, então nossas festas eram feitas pelos músicos da família. Meus pais, diante desse sofrimento da vida, de não ter terra, ver filho adoecer e não ter dinheiro para cirurgia no olho, fizeram uma promessa e alcançaram o pedido. A partir dessa graça, fazem a fogueira de São Pedro, que mantemos há mais de 50 anos. Meu pai organizava mutirões para cortar coisas e tirar café, e no final era festa com comida e cantoria. Ali comecei a pegar um pandeiro, às vezes sobrava um xique-xique, nos versos das rodas de calango eu ajudava a repetir. Comecei a tocar violão com 15 anos nas festas de padroeiro das comunidades. Até hoje, sou uma referência de animação nos encontros nacionais das comunidades eclesiais de base. Venho de uma formação que nenhuma atividade começa sem mística e espiritualidade, e o que me fez não desanimar até hoje é esse interesse por isso e a cultura. Chegamos a botar 2 mil pessoas na festa junina no terreiro da nossa casa e o povo comendo e bebendo sem pagar nada. Nós plantamos a festa, como o milho pra fazer o canjicão, e cantamos e rezamos sem padre de fora. Fazemos essa celebração com pastor, mãe de santo e tudo mais junto.

Nos anos 2000, comecei a ir ao Grito da Terra e os movimentos sociais e sindicais falavam da base, mas não davam valor a essa intervenção artística e cultural. Chegavam com um discurso marxista e as pautas. Então, a gente acordava antes da programação do evento para cantar. Começamos a reivindicar entrar nas pautas, a alvorada para acordar o povo nas reuniões e fazer cordel e verso nos auditórios. Foi quando o movimento agroecológico voltou para essas apresentações, a gente animando os cortejos e caminhadas com as bandeiras e trazendo música que falava disso. Encontrei intelectuais que pensavam a agroecologia, mas não conheciam as músicas que se relacionavam com o que eles discutiam: ciência, movimento, articulação, prática etc. Quando acontecia um ato sobre água, por exemplo, cantávamos algo sobre o tema. Então, colocamos a arte e a cultura dentro desses eventos, e junto com a questão da espiritualidade, que para mim é muito importante: trazer a força da ancestralidade e do sagrado para alimentar a gente nessa caminhada.

Não consigo pensar a luta do povo sem a cultura, a arte e a agroecologia. É esse diálogo com os saberes tradicionais, que são muito importantes trazendo a herança do nosso povo, que trabalha cantando: cantos de capina, tambores de mina etc. E essa dimensão do sagrado, eu que sou um remanescente de quilombo e descende indígena puri: se entra ou tira algo da mata, pede licença. Não tem como fazer agricultura sem trazer essa relação, a própria agricultura que vem do cultivar e do cultuar. O respeito às fases da lua e ao sol, aprendi antes de ir para a escola, a não plantar  milho ou feijão na lua nova. Aprendi a ler o tempo a partir desses ensinamentos da família, observar a natureza através desse calendário tão antigo, que é a Folhinha Mariana. 

Quando chegou o crédito fundiário na zona da mata, fui um dos articuladores e essa política chegou aos sindicatos. Hoje, em Espera Feliz, temos mais de 180 famílias assentadas pelo crédito fundiário sem nenhuma inadimplência, e muitas delas produzem café de qualidade com a agroecologia como eixo central. Nesse assentamento, originado pela compra de terras via crédito fundiário, fiz também uma promessa: desde que saiu o crédito comecei a fazer a festa de São Pedro, exatamente ali, entre os fazendeiros e o agronegócio. Distribuímos sementes no dia, frutas produzidas no local, fazemos as oficinas de formação, uma celebração cultural, e servimos toda a alimentação local de graça e sem veneno nem milho transgênicos.   

Foto: arquivo pessoal

Nessas suas andanças agroecológicas foi possível ter contato com vários gêneros artísticos e ritmos, como você vê de uma forma geral a cultura popular?

É muito importante porque trago do berço familiar esses aprendizados. O fato de me tornar um cantador nos eventos estaduais, regionais, nacionais e internacionais me facilitou o contato com um tambor, por exemplo. Nas nossas festas eram sanfona, viola, pandeiro… Então, passei a ter contato com outros instrumentos. Cresci nas rodas de jongo e caxambu, hoje como mestre e contramestre de folia dos reis e congado, percebo que esses cantos dialogam diretamente com a terra, os elementos da natureza, a espiritualidade e a ancestralidade. Sou muito influenciado também por MPB e Pop Rock, cresci numa casa sem energia elétrica e depois da colheita batia palhoça, catava milho, café etc. e vendia um pouquinho. A compra principal era para pilhas e ouvir, no final de semana, a Rádio Tupi, do Rio de Janeiro, Rádio Mundial… Então, ouvia Milton Nascimento, Djavan, Ney Matogrosso, os caipiras, Luiz Gonzaga e as entrevistas deles na rádio. Ficava doido com isso e nunca imaginava que um dia falaria numa rádio. Um tio meu havia saído naquela migração da década de 1960 para o Rio e fez uma dupla caipira, mas a família dele virou evangélica e perdeu-se muita coisa. Ele, sem saber, foi um grande incentivador meu, por ser um cantador no meio do povo. 

Na minha música tem um pouco de cada coisa: pop rock, samba, congados, folias, caipira, forró tradicional etc. Nas festas lá de casa tinha de tudo, mas desembocava no forró. Nesse processo, tive oportunidade de gravar um CD chamado Vozes da mata, que é uma releitura desses cantos de trabalho. Participávamos de festivais, encontros, mostras culturais, cantei com o Xangai, Rubinho do Vale, Pereira da Viola, que depois se tornou meu padrinho de casamento, e outros violeiros como Wilson Dias, Nádia Campos, Raquel Passos, que é uma pessoa iluminada com a MPB e as músicas tradicionais. Ela disse que se inspira em Tunay e João Bosco. Sempre gostava de comprar biografias e fui vendo as origens do Gil, Caetano etc., com o canto de trabalho dos escravos do Recôncavo Baiano. Com isso, fui conhecendo a força da arte e desses artistas, que fazem música para a luta e para alimentar a alma do povo. O Milton gravou música na década de 1980 que o movimento por moradia canta até hoje, assim como o Luiz Gonzaga, porque suas músicas dialogam com as nossas pautas. Assim nasce o rock, o blues e o samba. 

A arte tem uma força incrível para dialogar com a luta do povo. Tanto a música como a poesia, a dança, a expressão corporal, dizem às pessoas o que estamos sentindo e o que queremos passar. No movimento da agroecologia, criamos uma dinâmica para que a arte não seja simplesmente para descontrair o povo cansado e sim entrar na pauta como um eixo da discussão na sustentabilidade dessa luta e sonho. Da mesma forma, a questão espiritual, como foi a Tenda da Cura no último Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), que pegou alguns mestres da cultura tradicional para cuidarem das pessoas no evento. Até hoje, escutamos que o que fazemos é feitiçaria, macumba etc. Muitos ainda não estão preparados para aceitar o movimento da cultura popular, porque trazemos o que nos representa: tambores, viola, reco-reco, nossa dança…

Essa entrevista foi publicada originalmente no site da Midia Ninja. Para acessar, CLIQUE AQUI.

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