Manoel Conceição dos Santos. Crédito: Júlio Jacobina

O Dia Internacional da Agricultura Familiar, comemorado em 25 de julho, é um momento importante para denunciar os retrocessos que vêm ocorrendo para o setor no país, mas principalmente de celebrar nossas vitórias e nossas lideranças. Com a intensificação da criminalização dos movimentos sociais e os conflitos nos territórios, é necessário destacar a história de luta de mulheres e homens que dedicam suas vidas a fortalecer as lutas populares. Prestamos a nossa homenagem ao camponês e líder sindical Manoel Conceição Santos, que completou 85 anos recentemente. Ele é um símbolo de luta pela democracia e pelos direitos dos povos dos campos e das florestas.

Nascido na região de Pedra Grande, no Maranhão, Mané, como é conhecido pelos movimentos, lutou toda sua vida pela organização sindical dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. Começou organizando uma entidade em Pindaré-Mirim (MA) e, daí em diante, sua militância não parou. Participou da fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), do Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural (CENTRU) e do Partido dos Trabalhadores (PT). Toda sua vida também esteve ligada às forças progressistas das igrejas evangélica e católica.

Boa parte da sua trajetória foi marcada pela resistência à ditadura militar após o golpe de 1964. Tudo começou quando viu as terras dos seus pais sendo tomadas por grandes fazendeiros e, nessas lutas territoriais na região, foi baleado em um dos pés. Mesmo ferido, foi preso e, após alguns procedimentos médicos em São Paulo, teve uma das pernas amputada. Ainda assim, não parou de organizar sindicatos e cooperativas, além de sempre lutar pela reforma agrária. Passou a ser visto pelo governo como um subversivo. Ficou preso por mais de três anos, foi torturado diversas vezes, até que se refugiou em Genebra, na Suíça. Na Europa, realizou diversas palestras e debates com o apoio da Anistia Internacional e demais entidades dos direitos humanos.

Reconhecido pelos movimentos e autoridades, quase concorreu ao cargo de governador do estado de Pernambuco. Em 1994, lançou-se candidato ao Senado pelo PT do Maranhão, mas não foi eleito, apesar dos expressivos 111 mil votos conquistados. Com a saúde frágil, Manoel Conceição tem reduzido suas atividades, mas segue dedicando-se às cooperativas que ajudou a criar, através da Central de Cooperativas Agro-extrativistas do Maranhão (CCAMA), além de participar de articulações como a Rede de Frutos do Cerrado.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) da região do Tocantins e as organizações sindicais e da sociedade civil do Maranhão realizaram, a semana passada, uma reunião virtual para comemorar os 85 anos e homenageá-lo. Com a participação de poetas, professores, lideranças sindicais, familiares, dentre outros admiradores e parceiros, várias pessoas relataram a inspiração que o lutador deu aos movimentos Brasil afora.

Outra liderança estadual importante, Joaquim Alves, da União Nacional de Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes), amigo de luta há mais de 35 anos, reforçou como toda militância da região aprendeu muito com Manoel. “Sua defesa em busca de uma nova economia solidária, com o empoderamento da classe trabalhadora, ensinou muita gente”, reconheceu Alves. “Dizia que o trabalhador tinha que ser dono das suas ferramentas, da sua estrutura de produção, por dentro de um cooperativismo solidário. Falávamos da construção de uma grande entidade no Brasil, a Unicafes, da qual tenho a honra de ter participado da primeira direção junto com o Manoel. Hoje, temos uma grande organização como fruto da ideia e do aconselhamento deste grande homem”, afirmou.

O dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), João Pedro Stédile, destacou a importância do camponês para os movimentos rurais no país. “O povo brasileiro sempre lutou por seus direitos e causas de libertação. Essas lutas ficam registradas em livros através de suas lideranças. O MST sempre se abasteceu das lições históricas do nosso povo, mas você, em particular, representa as lutas anteriores dos sindicatos e das ligas, no exílio, em defesa da classe trabalhadora. Você fez a ponte que ligou essa luta ao nosso movimento. Temos uma gratidão enorme por sua coerência e exemplo”, disse Stédile, ao referir-se a Manoel Conceição.

O governador do Maranhão, Flavio Dino (PCdoB), ressaltou que Conceição é uma figura imprescindível quando se analisa a história do estado. “Você tem enorme papel nas lutas sociais, especialmente na luta pela reforma a agrária, e apoio à produção do nosso estado. Esses vínculos se materializam de várias formas, uma delas foi quando, em repúdio àqueles que louvam a ditadura militar, homenageamos Manoel como um dos heróis da resistência popular e democrática no Brasil”, lembrou Dino.

No encerramento, o sociólogo Marcos Arruda, do Instituto Pacs (Políticas Alternativas para o Cone Sul) lembrou os mais de 50 anos de amizade entre eles. “Ele [Manoel] foi preso várias vezes. Talvez seja uma das pessoas mais velhas que sobrevive ao maior horror das torturas. É um herói da luta do nosso povo”, concluiu.

Texto: Eduardo Sá | Edição: Viviane Brochardt /Articulação Nacional de Agroecologia

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