DSC_7654Osório (RS) – A Caravana Agroecológica e Cultural do Sul iniciou suas atividades na manhã da última terça-feira (01/03) resgatando o histórico da agroecologia na região e dialogando com um representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário. O galpão da capela Santa Rita de Cássia, no Morro da Borussia, abrigou cerca de 50 participantes para debater as políticas locais e estudos territoriais na região. A atividade foi uma realização da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) em parceria com o Centro Ecológico e a Rede Ecovida.

A região do litoral norte do Estado do Rio Grande do Sul é caracterizada pelo crescimento da comercialização de produtos da agricultura familiar, bem como pelo aumento da conscientização ecológica de sua população e interesse pelo consumo de alimentos saudáveis. Esse processo se inicia na metade da década de 1980, período de redemocratização do país, através da atuação da Pastoral Rural na região. A agricultura alternativa, como era chamada à época, é vista nos folhetos dos movimentos com os temas de acesso à terra, gênero e juventude, dentre outros.

“Nesse período o Centro Ecológico aparece a convite da Pastoral Rural para trabalhar com jovens em 1991. Em abril completaremos 25 anos, naquele momento surgiu a Assert (Associação dos Colonos Ecologistas da Região de Torres). Em 1999 além da sede em Ipê, o Centro Ecológico passou também para Serra Gaúcha e surgiram outros grupos de agricultores ecologistas. Foi constituída a Rede Solidária de Produção e Consumo de Produtos Ecológicos do Litoral Norte do Rio Grande do Sul e sul de Santa Catarina, de onde veio se tecendo a Rede Ecovida”, lembrou Laércio Meirelles, coordenador geral da Rede.

DSC_7663O Núcleo Solidário da Rede Ecovida foi criado em 1998, cresceu nas décadas seguintes e hoje é difícil saber em que estágio a agroecologia está na região. A estimativa atual é 25 grupos no litoral norte do RS de agricultores ecológicos, com famílias de 6 a 30 pessoas, sob coordenação da Ação Nascente Maquiné (Anama) e do Centro Ecológico. Há duas OPACs (Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade), que lidam com a certificação participativa de produtos orgânicos registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Existem também duas cooperativas de consumidores, a Ecotorres e a Copet, com centenas de associados.

“Temos contatos com escritórios da Emater, universidades, como a UFRGS, parcerias com o poder público para projetos e atividades. Há aproximadamente 250 famílias nesses grupos, com um aumento anual de participação na produção orgânica além de outras que não estão certificadas. São diferentes estratégias de comercialização, como feiras locais e a de Porto Alegre, supermercados, compras públicas, etc. Temos três agroindústrias legalizadas, duas da agricultura familiar e outra de um empresário que compra os produtos orgânicos, dentre outras iniciativas”, complementou Meirelles.

Segundo suas lideranças, a Rede Ecovida foi tecida apesar das políticas públicas, mas no decorrer do tempo dependendo dos governos eleitos foi recebendo mais ou menos estímulo por parte do poder público estadual e federal. Hoje cooperativas abastecem com banana a Rede Zaffari, a maior de supermercados do estado: começou em 2007 com 70 caixas e hoje são 3000 mil, muitas vezes com preço mais barato que o convencional. Os consumidores foram muito importantes nesse processo, principalmente na ativação da feira ecológica em 1989, em Porto Alegre.

Promovendo Agroecologia em Rede

DSC_7686A Caravana Agroecológica e Cultural Sul está inserida no Projeto “Promovendo Agroecologia em Rede”, executado com o apoio da Fundação Banco do Brasil (FBB) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), cujo processo começou nas etapas preparatórias do III ENA, realizado em Juazeiro (BA) há dois anos. Com o mote “Por que interessa à sociedade apoiar a agroecologia?”, os movimentos agroecológicos continuam procurando respostas e evidências para dialogar com a sociedade e ampliar a conscientização ecológica de um público mais amplo. Para aprofundar mais esse debate, estão sendo realizados nesse projeto 18 estudos, em 7 territórios, de Avaliação Econômica e Ecológica de Agroecossistemas.

“Esses estudos nos ajudam a produzir respostas concretas e objetivas àquela pergunta com ênfase nos dados econômicos, que são uma fragilidade no nosso campo. Estamos buscando demonstrar a viabilidade e superioridade da agroecologia em relação ao modelo hegemônico. É uma parceria com a AS-PTA, que há 10 anos vem desenvolvendo o método de análise experimentado. Foram definidos alguns critérios para a seleção dos territórios onde seriam realizados os estudos, garantindo a distribuição por todas as regiões do país”, afirmou Flavia Londres, da secretaria executiva da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA).

Entre os instrumentos do método está a construção coletiva de uma linha do tempo do território, que tem o objetivo de contar a história desses locais que não está nos livros, a partir da visão dos idosos, jovens, mulheres, etc. Nela podemos compreender como as políticas públicas incidiram, que crises ocorreram, dentre outros fatos que foram influenciando a trajetória das famílias e a formação dos tipos de agricultura familiar no território.

“As caravanas são momentos para debater e divulgar esses estudos. São oportunidades de aprofundar nossa capacidade de análise, aprimorar a percepção sobre nossos desafios e fortalezas para avançar na agroecologia. Esse processo tem ajudado também a fortalecer as redes e ampliar sua capacidade de incidência sobre as políticas públicas”, concluiu Londres.

Estudos do Sul

DSC_7719Os territórios visitados durante a Caravana e estudados no projeto estão ligados ao Centro Ecológico e à Rede Ecovida. Foram escolhidos para dar visibilidade à territorialidade que se dá a partir das relações que se estabelecem com os atores locais nas redes. A ideia do estudo, segundo o Gustavo Martins, da Anama e consultor das análises, é entender esses agroecossistemas e como se estruturaram na realidade de cada família.

“Foi preciso buscar a história dessa construção para caracterizá-la. Foram abordadas algumas dimensões, como a de gênero. Na oficina territorial foi possível ver que o espaço geográfico é fruto dessa história, as comunidades reproduzem um modo de viver com sua cultura formando a identidade local. Também nas relações entre as pessoas e com a natureza, podendo resultar em conflitos ou cooperação”, explicou Martins.

Para chegar a essa conclusão, o consultor foi buscar as raízes territoriais que determinaram as diferentes formas de vida desde os indígenas e as colonizações, as ocupações dos vales e áreas ligadas à horticultura posteriormente. Resgatou a importância da dimensão ecológica com uma série de unidades de conservação, que formam um grande mosaico de legislações ambientais afetando a forma da agricultura local.

“É difícil construir uma tipologia a partir das formas e expressões de agricultura no território, os sistemas vão se modificando no decorrer do tempo. Usamos alguns critérios: tamanho da área, grau de especialização, composição da força de trabalho familiar, sistema produção convencional, de transição ou agroecológico. Nosso interesse focou em pequenos e médios com diferentes níveis de especialização, baseados em mão de obra mais mistas e em sistemas em transição ou convencionais na região”, concluiu.

Para Alvir Longhi, da Rede Ecovida, a prioridade destes estudos foi o foco no tema da valorização e uso da sociobiodiversidade. “Discutir as cadeias entre os grupos e estabelecer preços. Dentro do contexto de encontros e socialização entre os atores. Os estudos servem para nos dar mais condições de organização dos nossos agroecossistemas, e dar um passo a mais nos territórios. Complementam os momentos anteriores com dados e elementos para reflexão aos técnicos, associações, dentre outros atores territoriais, para avançar”, afirmou.

Atuação do governo no Estado

DSC_7727Resgatando as falas do Ministro do Desenvolvimento Agrário, no sentido de buscar formas de melhoria à soberania e segurança alimentar com qualidade, Marcos Regelin, Delegado do MDA no RS, reforçou que a agroecologia é o programa que poderá preservar o meio ambiente, a vida e a água. Ele falou sobre a importância de saber como as políticas públicas estão chegando às propriedades e qual o grau de evolução e crescimento nessas localidades para poder avançar mais.

“É preciso ver como nossos agricultores orgânicos conseguem se apoderar das políticas, como o crédito, o Pronaf Agroecologia, a Ater agroecologia, etc. Qual a necessidade para conseguir escalas e atender os programas institucionais, porque ainda não estamos no estágio de atender todas as escolas municipais com produtos naturais. Discutir a comercialização, ver se já estamos organizados ou não para atender o mercado institucional”, destacou.

Se esse ainda é um desafio na região sul, nas outras do país a situação é muito pior, complementou o gestor.  É preciso, nesse sentido, avaliar por que não conseguimos colocar crédito ao agricultor agroecologista apesar dos R$ 29 bilhões disponíveis para agricultura familiar.

“Desafio que temos perante a sociedade brasileira de produzir diariamente para abastecê-la com qualidade e soberania e segurança alimentar. Esse debate tem de ser confrontado para avançar na perspectiva de políticas públicas para agroecologia. Teremos dificuldades em recursos públicos, não será tão farta a cesta de políticas nos próximos anos. Por isso, executar com muita qualidade as políticas que estão aí”, afirmou o gestor.

Por outro lado, Flavia Londres, da secretaria da ANA, lembrou as dificuldades já enfrentadas pela agricultura familiar. Ela comparou os bilhões destinados ao agronegócio em relação aos poucos recursos creditados à agricultura familiar. “É preciso dar apoio, recursos, assessoria técnica, etc. Existem trabalhos executados não sendo pagos, porque as chamadas não estão remunerando e equipes sendo desconstituídas e organizações quebrando por conta disso”,  criticou.

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