IMG_5330Ouricuri (PE) – No encerramento da Caravana Agroecológica e Cultural do Araripe, realizado na sede da ONG Caatinga no último sábado (27/02), foram apresentadas as impressões dos participantes sobre as visitas às experiências agroecológicas da região. Os quatro estudos do projeto “Promovendo Agroecologia em Rede”, uma parceria da ANA com a Fundação Banco do Brasil (FBB) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com avaliações socioeconômicas dos agroecossistemas locais, também foram apresentados e discutidos. Na ocasião, também houve um debate sobre as metodologias utilizadas nesse processo e seus objetivos.

Os relatos da caravana foram muito ricos porque apresentaram muitas coisas que as pessoas valorizam, e isso é importante porque coloca o tema do valor em questão, explicou Paulo Petersen, coordenador executivo da ONG AS-PTA. A diferença, segundo ele, entre os opositores da agroecologia e os estudos da agricultura familiar é que aqueles têm apenas indicadores fáceis só quantificando o lucro enquanto o campo agroecológico apresenta vários indicadores além do aspecto econômico.  É preciso, portanto, qualificar essas informações e divulgá-las para o reconhecimento e participação no debate político, complementou.

“O primeiro desafio é colocar a mesma língua nessas experiências heterogêneas, com os mesmos indicadores. Um dos grandes indicadores e justificador do agronegócio e dos grandes projetos é o crescimento econômico. A narrativa que faz com que a sociedade local tenha de aceitar, se não vai ficar no atraso. Grandes projetos que degradam, exportam a riqueza e só deixam degradação. Tem também a modernização da agricultura familiar, que gera riqueza que não é reinvestida no território”, criticou Petersen.

IMG_5320Muitos projetos da agroecologia se sustentam com persistência, resistência e luta com base na mobilização local. O que se espera do Estado é o apoio público e não o subsídio para prejudicar sua dinâmica, como no caso dos grandes projetos. É neste contexto que os movimentos da agroecologia comportam novos valores, com relações de cooperações e reciprocidades, e a tecnologia tem um papel diferente. A perspectiva é estimular projetos coletivos e pensar os territórios, ao invés da propriedade, em busca do fortalecimento das organizações locais. Há outro tipo de renda, a produção de estoque e a autonomia são uma forte característica, por exemplo.

Antes de analisar os estudos, os participantes pontuaram aspectos recorrentes nas visitas nos territórios do Araripe. Ao responder por que interessa à sociedade a agroecologia ou quais são os bloqueios ao seu avanço, destacaram: necessidade de organização dos atores impactados pelos grandes projetos, como a Ferrovia Transnordestina ou a exploração do gesso; a importância da estocagem de sementes, água, alimentos, dentre outras, para convivência com o semiárido; a agroecologia reafirmando a vida e o cuidado com as pessoas e a natureza; soberania e segurança alimentar e nutricional; importância da luta feminista e o papel da mulher; degradação dos bens naturais pelo agronegócio; falta de escolas rurais e ensino contextualizado, etc.

As avaliações socioeconômicas no Araripe

O método dos estudos procura ler a realidade para agir sobre ela. A agroecologia é como se fosse um óculos, por meio do qual a agricultura familiar é entendida, para disputá-la. O próprio reconhecimento da existência dos pequenos agricultores, explica Paulo Petersen, um dos idealizadores do método, foi uma luta realizada durante décadas pelos técnicos e movimentos agroecológicos.

IMG_5319“A criação de uma política de agricultura familiar é uma conquista, são menos de 15 anos de lei. Mas depois vieram as disputas das três classificações para diferenciar as 4,5 milhões famílias da agricultura familiar na década de 1990: consolidada, em transição e periférica. Tudo isso com base na renda anual, são 700 mil consolidados e mais de 2 milhões de periféricos. As políticas fortalecem as consolidadas, enquanto as periféricas recebem políticas sociais. Os recursos são orientados ao agronegocinho”, explicou.

A nova disputa é pela Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PANPO), que foi instituída em 2012. Há um debate desde sua criação sobre quem são os atores, como se mede ou certifica suas produções, dentre outras questões. Os estudos, nesse sentido, aprofundam a discussão e apresentam elementos para abordar a diversidade dos territórios.

“As políticas costumam ir para lógica individualista, raciocinam em torno do valor monetário. Mas tem rendas que são invisíveis, como o autoconsumo. A geração da riqueza é fruto do trabalho, é preciso medir por ele: bem estar, meio ambiente, etc. O capitalismo disfarça isso. O agricultor trabalha em harmonia com a natureza, é a economia camponesa trabalhando e trocando com a economia ecológica”, destacou.

A lógica empresarial é altamente dependente de subsídio público, assessoria técnica, cadeias produtivas, dentre outros elementos. A relação do mercado diferencia as estruturas, inclusive o mercado financeiro que está umbilicalmente associado ao agronegócio. “A economia camponesa não desaparece, porque tem uma economia que não é considerada. A lógica do capitalismo contabiliza tudo que tem valor de troca, mas tem muito valor de uso que é determinante na reprodução. A agricultura familiar tem, por exemplo, o mutirão com reciprocidade e outros valores que não são contabilizáveis e são destruídos na agricultura convencional”, concluiu Petersen.

IMG_5322Em relação à visibilidade desses estudos e informações produzidas por essas organizações, Carlos Magno, da Articulação do Semi-Árido Brasileiro (ASA), lembrou que o agronegócio sustenta seu projeto frente à opinião pública pela mídia tradicional e é fundamental disputar essa hegemonia para ampliar o público agroecológico e conscientizar a sociedade. Para ele, o estudo serve como uma excelente ferramenta política nos territórios porque questiona a lógica do agronegócio.

“Precisamos nos sensibilizar para o processo hegemônico na comunicação no Brasil: a nossa TV, rádio e jornal não comunica o que fazemos. Precisamos disputar isso com a comunicação popular, nesse processo tão injusto que tratora de forma massiva nossos projetos. É algo muito sério e precisamos quebrar o bloqueio da comunicação corporativa”, alertou.

“Nossa retórica foi ampliada e qualificada, precisa ser adotada pelas organizações e nos ajuda a fazer o debate. Inserir essas informações na dinâmica de trabalho, aprimorar o método e buscar mais respostas. Ampliar essas percepções e alimentar esses debates nas redes para que a gente possa aprimorar nossa ação nos territórios. Incorporar esses elementos na formação dos técnicos, junto aos parceiros e agricultores”, pontou Giovani Xenofonte, do Caartinga.

Um dos formuladores do método aplicado nos estudos, Luciano Silveira, da AS-PTA, explicou que é um processo de aproximação buscando integrar algumas referências para melhorar a dinâmica de inovação nos territórios. “Estamos produzindo resultados coletivos, exercitando esse olhar de forma permanente. Confrontando esses estudos, as lentes vão ficando mais claras e abrindo nossos olhares. Estamos fechando o primeiro ciclo da pesquisa, e no meio do ano faremos um seminário derivado de seminários territoriais para reinstituir nossas iniciativas de pesquisa”, afirmou.

Do ponto de vista acadêmico, essas novas abordagens nas pesquisas são bastante significativas. Porque o saber científico tem o poder de dizer o que é ou não importante, daí a relevância das novas caracterizações, explicou a professora Laeticia Jalil, do Nepas/UFRPE, consultora nos estudos. Segundo ela, foi possível chegar a cinco níveis da agricultura familiar nas análises no Araripe.

“Essas tipologias que construímos foi uma tentativa de aproximação da realidade da agricultura familiar no território do Araripe. Chegamos a cinco: os sem-sem, a agricultura camponesa tradicional, a agricultura familiar em transição agroecológica, a agricultura familiar que tende à especialização e os proprietários de terras. O método é muito novo e desafiador para a universidade, e é um processo. Nossa ciência é muito cartesiana, isso nos tirou de um local de conforto”, concluiu.

As atividades foram realizadas pela ANA em parceria com o Caatinga, Centro Sabiá, Articulação Semiárido (ASA), dentre outras organizações. Também está em processo a elaboração de dez estudos de casos na região do semiárido, através de uma parceria da ASA com o Instituto Nacional do Semiárido (INSA) para analisar as variações dos indicadores das famílias.

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