IMG 1169Em solidariedade ao I Encontro Nacional do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), realizado em Brasília, Jociane Pinheiro, da assessoria da Pastoral da Juventude Rural (PJR), contribuiu na construção da programação cultural durante as atividades. Na ocasião, ela conversou com a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) sobre a situação dos jovens no campo, e apresentou algumas reivindicações do movimento. Segundo ela, é preciso trabalhar por um reencantamento da juventude com a mãe terra, e sua permanência no território é fundamental para a melhoria da vida camponesa.

 

Quais as principais frentes de luta do movimento?

Nossa principal bandeira é a permanência do jovem no campo, e para isso acontecer precisamos de políticas públicas voltadas para esse setor. Mas também políticas para as famílias, porque se a juventude quiser ficar na roça e os pais irem embora não adianta. Educação no campo e do campo, para que as escolas voltem a funcionar lá onde as pessoas vivem de fato. A gente chama “chão da vida” dos nossos camponeses (as) lá na base, então que retorne para o campo com uma matriz pedagógica que seja própria deles. Tem as políticas, empréstimos, subsídios, enfim, está cheio de promessa no campo.

Você falou de escolas, qual o cenário? Muitas estão sendo fechadas?

No final dos anos 80 e início dos 90, quando veio o pacote verde veio também o projeto de tirar as escolas do campo e colocar nos núcleos maiores. Nesse processo que a juventude e as crianças perdem também o direito que é delas. A gente chama de assassinato no campo, uma violência enorme, porque tira a educação das crianças, a vida que elas têm ali, e levam para estudar uma matriz pedagógica que não tem nada a ver com a realidade delas. São crianças, adolescentes e jovens que acordam muito cedo para ir à escola, se deslocam quilômetros para estudar uma realidade que não é a deles. Isso aconteceu, e continuam fechando escolas no campo.

Não queremos mais o fechamento das escolas, e queremos que de fato a educação seja voltada para o campo. Porque entendemos que a juventude está perdendo a cultura camponesa, e esse processo de permanência do jovem no campo envolve várias outras coisas. A questão do não envergonhamento, porque a gente percebe que a mídia e o capitalismo colocam para as famílias do campo que lá é feio, vergonhoso. Então, a juventude que vai estudar noutros lugares, por exemplo, enfrenta a questão de que são colonos, feios. Queremos que a cultura camponesa volte, e consiga mostrar que no campo existe vida, é bom de morar. Sabemos das dificuldades de morar no campo, não é fácil ser agricultor e agricultora, ser trabalhador do campo e da cidade tem inúmeros desafios. Mas há vida no campo, é preciso mostrar que lá existe uma cultura que nós precisamos. É um dever nosso, não só da PJR mas de todas as organizações da Via Campesina que trabalham com juventude, fazer o reencontro da juventude com a mãe terra. Quando esse reencontro acontecer e entendermos que a mãe terra precisa de cuidados, vamos entender várias outras coisas.

O que de positivo já vem ocorrendo nesse sentido concretamente?

Existem algumas políticas acontecendo há algum tempo, como o Pronaf Jovem, o Primeira Terra, etc. Mas eu acredito que o mais positivo e mais bonito, porque eu sou uma pessoa que lido muito com a mística, é a gente voltar ao reencantamento da juventude camponesa e se sentir parte. O mais bonito é a organização que está acontecendo, a nível internacional, da preocupação dos movimentos do campo de organizar a juventude. De fazer esse acordar, esse levante, que vai trazê-la de volta a pensar um jeito de permanecer no campo. E uma das pautas importantíssimas é a agroecologia, que é uma das nossas bandeiras. Então, a juventude precisa discutir, tomar isso como esse essência da vida.

Temos também os Grupos de Produção e Resistência (GPR), que se organizam na sua comunidade e a partir de algumas experiências agroecológicas vão tentar viver culturalmente, economicamente e socialmente. Vão se organizar nesse sentido. É uma tentativa de trazer a juventude para o campo, e ter experiências também de agroeocologia. Temos esse projeto que vai tratar diretamente da produção. Somos também companheiros presentes e atuantes no debate sobre reforma agrária popular, a questão da agroecologia, então nós temos várias bandeiras que somam aos movimentos sociais do campo.

A droga, em função dos grandes projetos que avançam nos territórios, já é um problema rural como na cidade entre a juventude?

Não temos debatido isso como ponto prioritário, mas ele entra numa questão muito importante para nós, que as PJR a nível de Brasil lançaram, a campanha “Basta de violência contra a juventude”. Entra esse debate das drogas, a expulsão do jovem do campo, a questão dos agrotóxicos, etc. Nós temos essa problemática, a droga está chegando no campo sim, não só o álcool e o fumo, mas também o crack, que é a droga do pobre. Estamos enfrentando essa dificuldade não geral, mas em alguns pontos específicos. A gente está tentando lidar com isso, então estamos dentro da campanha, que está trazendo também esses elementos e somando com a juventude urbana. Em Santa Catarina, por exemplo, temos uma parceria muito grande com a Pastoral da Juventude Popular que trabalha com as periferias e bairros. Estamos nos juntando nas discussões para abrir o leque da discussão campo e cidade, e ver como podemos nos ajudar nesse sentido.

Como entra a questão da mídia em relação à juventude do campo? Vocês produzem também comunicação?

Nós temos um site (www.pjr.org.br) e facebook, e muito contato com o povo do Pastoral da Juventude do Meio Popular nesse sentido. Mas falando de mídia, ela massifica, né? Então a gente está lá no bairro de periferia e se formos ao campo numa comunidade de interior ouviremos a mesma música, o mesmo estilo, o mesmo lixo cultural. Então também temos projetos culturais: viola, percussão, capoeira, etc. Com muita ênfase na questão da viola, porque daí junta campo e cidade para a gente retomar algumas coisas, trabalhar essa questão cultural, voltar às raízes, e também de música boa. A gente traz pessoas como o Chico César, Pereira da Viola, fazer a nossa juventude ouvir coisas diferentes. Porque é emburrecimento mesmo o que a mídia traz, e tem tudo a ver com o consumo porque a juventude é alvo fácil. Então fazemos a nossa juventude ouvir músicas que não sejam descartáveis, como essas que estão aí. Músicas com poemas, gente que é poeta e botou em música para a gente também ajudar nesse processo de conscientização e tudo mais.

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