doriel barrosRetomando o debate sobre a seca, o Centro Sabiá inicia uma série de três entrevistas sobre a campanha idealizada pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Estado de Pernambuco (Fetape) realizada em parceria com a Arquidiocese de Olinda e Recife e Cáritas Regional Nordeste 2. Quem abre a conversa é o presidente da federação, Doriel Barros, que fala sobre as três etapas da mobilização e ainda faz um balanço sobre as ações do governo para o período de estiagem.

Centro Sabiá – O que esperar de 2013, sabendo que a luta pela convivência com o período de estiagem continua?

Doriel de Barros – 2013 será extremamente importante. Primeiro, sociedade e governo estarão focados nas ações. Quando um ano não trata de questões eleitorais, conseguimos ter medidas mais voltadas para as necessidades da população. É um ano que se inicia com um grande desafio que é o enfrentamento aos efeitos da estiagem prolongada. No ano passado, iniciamos um trabalho de parceria com a Arquidiocese, onde trabalhamos três encaminhamentos que têm continuidade em 2013. A campanha de arrecadação de água mineral, feita na Arquidiocese de Olinda e Recife, envolvendo todas as paróquias, onde enviamos para o Sertão e Agreste mais de 150 mil litros de água. Também a campanha de arrecadação de recursos, que iniciamos agora, em parceria com a Cáritas, Fetape, Arquidiocese e sindicatos, para mobilizar fundos para construção de tecnologias como cisternas de placas e barragens subterrâneas. No próximo momento, vamos ter a apresentação de um plano de convivência com o Semiárido. Esperamos entregá-lo no mês de março aos governos federal, estadual e a outras organizações.

Centro Sabiá – Sobre idealização da campanha, como ela surgiu? E como você avalia a parceria com a Igreja?

Doriel de Barros – Esta foi uma proposição nossa, da Fetape, quando fomos para a reunião com o arcebispo, onde propusemos para ele trabalhar em três frentes. Dom Fernando aceitou prontamente e começamos a envolver outras organizações. O próprio Centro Sabiá foi um dos que esteve nesta primeira reunião. Sabemos que esta situação é de responsabilidade do Estado (governos federal, estadual e municipal), mas também existe a necessidade de chamar a atenção da sociedade. Além disso, a campanha também tem a finalidade de mostrar que as ações não estão chegando e que o povo está passando necessidade. Ou seja, chamar a atenção da sociedade e pressionar o governo. Já a parceria, é histórica. Para se ter ideia, a fundação da Fetape se deu com a participação da Igreja Católica, há 50 anos. Em outros momentos de seca já estivemos juntos. Temos a felicidade de ter, à frente da Arquidiocese, Dom Fernando Saburido, que tem sido um grande parceiro nesta luta política em busca de um Semiárido onde as pessoas possam viver com dignidade.

Centro Sabiá – A arrecadação de fundos é voltada para pensar tecnologias, como a construção de cisternas, que possam facilitar a convivência com o período de estiagem. Você poderia falar mais sobre isso? E quais as expectativas para a segunda fase da campanha?

Doriel de Barros – Tivemos muito sucesso na primeira etapa e, com certeza, teremos também nesta segunda. Queremos envolver toda a sociedade, formatar agendas com empresários e pedir doação através das paróquias. É uma ideia que acreditamos e sairemos vitoriosos. Serão construídas ações estruturantes, que são tecnologias alternativas que as organizações, como Fetape, ASA [Articulação no Semiárido Brasileiro] e o Centro Sabiá, já têm experiência. Temos exemplos de convivência de famílias que, com orientação e com estas tecnologias, têm conseguido sobreviver de forma saudável neste momento de seca. É claro que a seca é um problema que sempre vai existir, mas a convivência é possível.

Centro Sabiá – A mobilização e a arrecadação de fundos acontecem em conjunto?

Doriel de Barros – Em conjunto. A Cáritas vai ser a entidade que vai receber esse recurso, mas a campanha é feita com o envolvimento de todos. Então fizemos cartazes e divulgamos para todos os sindicatos. Se as pessoas quiserem depositar alguma quantia, é pelo número da conta que tem nesse material de divulgação. No final, sentará a Fetape, a Arquidiocese e a Cáritas para ver o que foi arrecadado e quais serão os municípios e as comunidades que receberão esses investimentos.

Centro Sabiá – Doriel, sobre 2013, como o movimento sindical vai se articular?

Doriel de Barros – Queremos buscar o diálogo com o estado. Ano passado fizemos reuniões colocando as dificuldades que a nossa base enfrentava e que o povo estava passando. Esperamos que este ano possamos evoluir mais do ponto de vista da ação do governo. Este ano também será o de uma grande mobilização que a Fetape está fazendo, que é o Grito da Terra Pernambuco. Imaginamos fazer um Grito da Terra com mais de 10 mil pessoas em Recife e, com certeza, vamos buscar organizações para estarem juntas conosco neste momento.

Centro Sabiá – Doriel, ainda sobre a seca, falamos muito da necessidade das políticas públicas terem esse olhar para a convivência e não para o caráter emergencial, mas também sabemos que estas políticas emergenciais são necessárias quando a situação chega a um limite. Como você avalia as ações do governo ao longo deste período de estiagem?

Doriel de Barros –Esta seca traz duas questões importantes. Primeiro, mostra claramente que se não fosse a luta dos movimentos para assegurar diversas políticas públicas, como o crédito, aposentadoria rural e Garantia Safra, teríamos neste momento uma situação muito difícil e muitos talvez já tivessem até morrido de fome. Segundo, o governo ainda precisa se preparar muito para poder enfrentar momentos como este. Isso mostra que, durante gestões sucessivas, o Semiárido não foi estruturado de forma que o povo não tivesse que pagar um preço alto por isso. As ações não chegam para todos. Poderíamos estar vivendo outro momento se houvesse investimentos no Semiárido. Então é claro que reconhecemos o esforço do estado, mas, ao mesmo tempo, não podemos negar que ele não se preparou. Por sinal, devemos ter ao fim desta seca um resultado ruim. Do ponto de vista da economia, vamos levar de 15 a 20 anos para recuperar o que foi perdido e muitos agricultores sairão do campo para a cidade. Sem dúvida os resultados serão negativos, e, sobretudo, atribuímos isso a falta de planos do estado, que não deu condições para essas pessoas permanecerem no campo, com aquilo que elas investiram durante tanto tempo na vida.

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Conta Corrente: 43879-0

 

 

 

(*) Reprodução do Centro Sabiá.