Durante a Plenária Nacional da ANA, representantes de diversos estados brasileiros percorreram comunidades em Guaíra e Terra Roxa, onde lideranças indígenas apresentaram experiências de produção agroecológica, denunciaram a violência histórica sofrida pelo povo Guarani e reafirmaram a defesa do território como condição para a continuidade da vida, da cultura e dos saberes ancestrais.

“O território é a base para tudo. É o essencial.”

A frase da liderança Avá-Guarani Paulina Martinez resume o que os participantes da Plenária Nacional da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) encontraram ao percorrer comunidades indígenas nos municípios de Guaíra e Terra Roxa, no Oeste do Paraná. Integrando uma das sete rotas que compuseram a caravana agroecológica, realizada durante o encontro, o percurso por terras indígenas  reuniu representantes de movimentos sociais, organizações e redes agroecológicas de diferentes regiões do país para conhecer experiências de produção de alimentos, fortalecimento comunitário e resistência territorial construídas pelo povo Avá-Guarani.

Foto: Fabio Conterno

Classificada pela ANA como a rota “Conflitos e Modos de Vida”, a atividade teve como foco conhecer a luta das comunidades indígenas pela permanência em seus territórios, a preservação de sua cultura e espiritualidade, além dos impactos provocados pela expansão do agronegócio e pelo uso intensivo de agrotóxicos em áreas vizinhas. Ao longo da rota, as lideranças apresentaram roças, espaços comunitários, áreas de recuperação ambiental e casas de reza, mostrando que a agroecologia, naquele contexto, ultrapassa a dimensão produtiva. A produção de alimentos está diretamente ligada à preservação dos conhecimentos tradicionais, à transmissão cultural entre gerações e à reconstrução dos vínculos com o território.

Parte dessas iniciativas é fortalecida pelo Projeto OPANÁ: Chão Indígena, uma política pública voltada à promoção de direitos junto às comunidades Avá-Guarani do Paraná. Desenvolvido para enfrentar vulnerabilidades históricas decorrentes da perda territorial, da insegurança alimentar e da exclusão social, o projeto atua por meio da Assistência Técnica Indigenista com enfoque agroecológico. Com isso, contribui para o fortalecimento da segurança alimentar e nutricional das famílias e para a ampliação dos Sistemas Indígenas de Produção Agroecológica (SIPAs). As ações também incluem o fortalecimento das associações comunitárias, o incentivo à geração de renda, atividades de educação antirracista e iniciativas voltadas à valorização cultural e à troca de saberes entre as comunidades indígenas.

“Dizem os mais velhos que devemos levar as crianças recém-nascidas para andar na roça, para a alma ser fixada no território”, contou a indígena Paulina Martinez durante a visita. A fala expressa uma compreensão compartilhada por diversas lideranças presentes: para os Guarani, a terra não é apenas um meio de subsistência, mas parte fundamental da vida espiritual, da identidade coletiva e da continuidade do seu povo.

As comunidades visitadas estão inseridas em uma região marcada por décadas de conflitos fundiários e profundas transformações territoriais. A formação do reservatório da Itaipu Binacional, nos anos 1980, alagou extensas áreas tradicionalmente ocupadas pelos Avá-Guarani. Posteriormente, a expansão da monocultura e da fronteira agrícola intensificou os processos de expulsão e confinamento das comunidades, que passaram a viver em áreas reduzidas, frequentemente cercadas por lavouras. Nos últimos anos, processos de reparação histórica têm buscado responder a parte dessas demandas, embora os desafios ainda permaneçam no cotidiano das famílias.

Foto: Fabio Conterno

Para os participantes da rota vindos de outros territórios indígenas do país, a paisagem encontrada no Oeste do Paraná também chamou atenção. Cacique do povo Borum-Kren, de Minas Gerais, Danilo Antonio Campos da Silva descreveu a visita como uma experiência impactante. Acostumado a viver em uma região onde ainda existem extensas áreas de vegetação nativa, ele relatou ter ficado impressionado com a ausência de grandes remanescentes florestais no território visitado. “A gente vê a terra gritando”, afirmou. Danilo também destacou os impactos do uso intensivo de agrotóxicos sobre as comunidades. Segundo ele, o modelo agrícola predominante afeta a saúde, a segurança alimentar e os modos de vida das populações locais, gerando consequências tanto físicas quanto emocionais.

Durante as visitas, os relatos evidenciaram que a violência não pertence apenas ao passado. “A gente vive muito a insegurança. Eu até hoje tenho medo de ir sozinha na minha rocinha”, relatou Paulina. Na mesma comunidade, a liderança Ilson Soares recordou episódios de ataques contra os Guarani. “Em frente à casa de reza tivemos o primeiro ataque. Com um tiro só eles derrubaram quatro Guarani. Nesta comunidade a violência nunca parou, sempre tem uma ameaça, uma tentativa.”

As marcas desses conflitos aparecem não apenas nas disputas territoriais, mas também nas condições de vida enfrentadas pelas comunidades. Lideranças relataram dificuldades relacionadas à moradia, ao acesso a serviços básicos e ao preconceito vivenciado em espaços urbanos e escolares. “Nossas crianças eram chamadas de pequenos invasores de terra na escola”, relatou Ronaldo Esquivel. “Tudo é precário”, resumiram moradoras e moradores ao descrever as dificuldades enfrentadas por muitas famílias.

Foto: Fabio Conterno

As observações feitas durante a visita também reforçaram a compreensão de que os conflitos enfrentados pelos Avá-Guarani permanecem atuais. Representando a Rede de Mulheres Negras para a Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Redessan), Thaíse Fernandes destacou que as invasões e violações de direitos sofridas pelos povos indígenas não pertencem apenas ao passado. Mas, segundo ela, o território também se revelou um espaço de vida, resistência e continuidade cultural. Thaíse também enfatizou que, além dos conhecimentos ancestrais que garantem a permanência das comunidades, a efetivação dos direitos territoriais e a demarcação das terras indígenas continuam sendo condições fundamentais para assegurar a vida e a dignidade dos povos originários.

Mesmo diante desse cenário, a palavra mais repetida ao longo da visita foi resistência.

“Resistir para existir. Lutar para que as coisas naturais ainda possam existir”, afirmou Paulina. A mesma ideia reapareceu em diferentes momentos e vozes. “A gente está cansado, mas não derrotado. A gente resiste e persiste. Somos um povo que luta por nosso território”, disse Ilson Soares. Para Ronaldo Esquivel, a permanência do povo Guarani em seu território é resultado direto dessa trajetória coletiva. “Se não tivesse resistência, não estaríamos mais aqui.”

A memória também ocupa lugar central nessa caminhada. Em uma das comunidades, os participantes conheceram uma casa de reza construída no local onde vivia uma jovem liderança que tirou a própria vida. O espaço foi transformado em homenagem à sua trajetória e à luta de seu povo. O gesto simboliza a forma como as comunidades transformam perdas em espaços de fortalecimento espiritual, preservação da memória e continuidade da resistência.

A força dessa permanência também foi destacada por quem participou da caravana. Representando o Grupo de Trabalho de Agroecologia Indígena da ANA, Mariane Tupinambá, de Santarém, no Pará, afirmou que a visita permitiu observar uma realidade frequentemente invisibilizada pelos discursos que apresentam a região apenas como uma potência do agronegócio. Para ela, a presença das comunidades Avá-Guarani demonstra que, apesar dos processos históricos de invasão e violência, os povos indígenas seguem defendendo seus territórios e seus modos de vida. Mariane ressaltou que a continuidade das práticas agroecológicas e culturais Guarani representa uma importante expressão de resistência diante das pressões exercidas sobre os territórios indígenas.

Foto: Fabio Conterno

Ao final do percurso, ficou evidente que a agroecologia praticada pelas comunidades Avá-Guarani está profundamente conectada à defesa do território. Mais do que uma técnica agrícola, ela se apresenta como uma estratégia de permanência, autonomia alimentar, fortalecimento cultural e reconstrução da vida coletiva. Em cada roça visitada, em cada semente guardada e em cada história compartilhada, emergiu a convicção de que a luta pela terra continua sendo, também, uma luta pela existência.

“Nós continuamos firmes na luta. Não abaixamos a cabeça. Continuamos a resistir e a incentivar os nossos jovens a lutar”, resumiu Ronaldo Esquivel ao encerrar a visita.

A frase ecoou como uma síntese do que foi visto no território: não apenas experiências agroecológicas, mas comunidades que seguem cultivando, ao mesmo tempo, alimento, memória, cultura e futuro. Em Guaíra e Terra Roxa, a defesa do território continua sendo a base sobre a qual se constrói a vida. E é justamente nessa relação entre terra, cultura, autonomia e direitos que iniciativas como o Projeto OPANÁ: Chão Indígena encontram seu sentido mais profundo.

A rota Conflitos e Modos de Vida foi uma das sete rotas que compuseram a Caravana Agroecológica do Oeste do Paraná, realizada como parte da programação da Plenária Nacional Ampliada da Articulação Nacional de Agroecologia – 2026, realizada em Foz do Iguaçu (PR), de 18 a 22 de maio de 2026. Para saber mais sobre a Plenária, acesse: www.enagroecologia.org.br.