Diálogo na 23ª Jornada de Agroecologia evidencia Paraná de impactos
do agronegócio e de resistência popular pelo bem viver.

Por Assessoria de Comunicação Terra de Direitos

O estado do Paraná se destaca, ao mesmo tempo, por abrigar duas realidades opostas no que diz respeito à produção de alimentos, ao uso da terra e à relação com a natureza. De um lado, consolida-se um modelo agroexportador predatório. Apenas no primeiro quadrimestre do ano, o estado embarcou 6,72 milhões de toneladas de soja, posicionando-se em 6º lugar no ranking nacional de exportação — um índice econômico que caminha lado a lado com severos impactos socioambientais.

De outro lado, pulsa um histórico de defesa da agroecologia e de resistência ativa. O Paraná é território de 45 aldeias indígenas, ao menos 43 comunidades quilombolas certificadas pela Fundação Cultural Palmares, além de uma imensa diversidade de povos tradicionais e assentamentos da reforma agrária que produzem o alimento que de fato abastece a mesa brasileira.  Um cenário amplamente debatido por agricultores familiares, organizações sociais, movimentos populares, povos indígenas, quilombolas e povos e comunidades tradicionais durante a 23ª Jornada de Agroecologia, realizada em Curitiba (PR). 

A agressividade do agronegócio sobre os territórios tradicionais e a agricultura familiar faz com que a história do estado seja marcada por profundos episódios de luta. Exemplo disso foi a ocupação da transnacional Syngenta, em 2007, quando cerca de 200 integrantes da Via Campesina ocuparam uma fazenda da empresa em Santa Tereza do Oeste. Na área, a multinacional cultivava sementes transgênicas ilegalmente na zona de amortecimento do Parque Nacional do Iguaçu, patrimônio natural da humanidade. 

A resposta violenta da empresa, que recorreu a uma milícia privada, resultou no assassinato do militante Valmir Mota de Oliveira, o Keno. Após uma batalha judicial que se estendeu por quase duas décadas, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) confirmou – numa decisão emblemática – a responsabilidade da transnacional, obrigando-a a indenizar a família de Keno e a agricultora Isabel Maria Cardin, sobrevivente do ataque. 

A memória de Keno e a resistência ao avanço dos transgênicos e agrotóxicos conectam-se diretamente com a agenda atual de disputa de modelos no estado. Em 2027, o Paraná se prepara para sediar o V Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), em Foz do Iguaçu, no primeiro semestre. O evento, somado à longevidade da Jornada de Agroecologia e outros marcos, sedimenta a relevância do estado na defesa da agroecologia e contra a contaminação da terra, das águas e alimentos. 

“O estado do Paraná é um estado de luta e defesa da agroecologia justamente por toda a sua trajetória na organização popular do campo agroecológico. Aqui a agroecologia surge como um projeto político mesmo, como um berço também de movimentos sociais que lutam pela terra, pela reforma agrária e pela defesa do território”, destaca a assessora jurídica da Terra de Direitos e integrante da Comissão Regional Sul do V ENA, Giovanna Menezes. 

Atividade de debate durante a 23ª Jornada de Agroecologia do Paraná. Foto: Lizely Borges

Conhecimento sustentado nas trocas e na aliança campo-cidade 
Para povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares a dinâmica de partilha e a produção de conhecimento a partir da coletividade são elementos essenciais na agroecologia. 

“Agroecologia é gente, é conhecimento, são saberes que as pessoas desenvolveram ao longo do tempo. Se a gente não consegue esses espaços de encontro, de diálogo, a gente perde muito da riqueza do que está sendo feito em cada território. Então, esses momentos de diálogo são para a gente poder ter uma dimensão também da complexidade e da riqueza da agroecologia, e ver como conseguimos fazer intercâmbios, né? Como vamos trocando entre as pessoas, conhecendo mais e combinando também os próximos espaços, qual é a prática que vamos fazer juntos”, pontua Patrícia Pinheiro, membra da Comissão Regional Sul e Local do V ENA. 

Esse processo coletivo, contudo, precisa romper com as barreiras geográficas, destaca a   guardiã de sementes e integrante da Rede de Sementes da Agroecologia, Inês Polidoro. Ela destaca que em um cenário severo de contaminação por agrotóxicos e de insegurança alimentar estrutural, o debate sobre o alimento saudável urge por uma aliança profunda com os centros urbanos. A responsabilidade política pela preservação da vida e da terra precisa ser compartilhada por quem consome na cidade. 

 “A alimentação saudável deve ser uma preocupação da cidade e do campo. O ENA não é só do campo porque todos nós, seres humanos, nos alimentamos: ou nos nutrimos, ou nos contaminamos. E a maioria da população hoje é urbana. Então, cuidar do campo não é uma tarefa só de quem mora no campo, é uma tarefa da cidade”, destaca.  Inês defende que as pessoas da cidade devem se envolver no debate sobre a necessidade mais primária, do alimento.  

“Quem está no campo está defendendo, plantando alimento saudável, defendendo a floresta, defendendo os rios de não serem contaminados; e os da cidade são os que recebem ou o alimento que nutre, ou a contaminação”, reflete Inês.  

Novas contaminações e a continuidade da luta  
Apesar do acúmulo histórico de organização popular, o avanço desenfreado dos pacotes químicos do agronegócio exige um estado de alerta permanente. Recentemente, episódios graves de contaminação por agrotóxicos têm ameaçado diretamente a subsistência e a integridade de comunidades camponesas e povos tradicionais no Paraná. 

No Oeste do estado, o povo indígena Avá-Guarani, no município de Terra Roxa, enfrenta uma dupla violência: a disputa pela demarcação de suas terras tradicionais em meio à tese inconstitucional do Marco Temporal e a severa intoxicação provocada pela pulverização de veneno em lavouras vizinhas. O município possui forte produção de soja, com intenso uso de agrotóxicos. Dos 921 dos 1.209 estabelecimentos agropecuários de Terra Roxa relataram uso de agrotóxicos.  O uso intensivo de agrotóxicos contaminou rios, alimentos, animais e povos indígenas. Os pesticidas são até usados como arma química para confinar os povos indígenas a uma faixa de terra cada vez menor. 

O impacto dessa contaminação sistemática motivou organizações de direitos humanos, entre elas a Terra de Direitos, a moverem uma denúncia formal perante o Ponto de Contato Nacional da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) contra a multinacional Bayer. Recentemente, entidades de cinco países rejeitaram a mediação proposta pelo órgão, criticando a recusa das autoridades alemãs em avaliar os impactos concretos e cumulativos dos agrotóxicos sobre a saúde e os modos de vida desses povos indígenas. 

A despeito do cerco químico e econômico, os Avá-Guarani resistem e mantêm viva uma cosmovisão que ensina à sociedade formas alternativas e respeitosas de se relacionar com a biodiversidade, contrapondo-se à lógica de esgotamento promovida pelo agronegócio. 

Elvio Rios, liderança da Terra Indígena Tekoha Guasu Guavira, em Terra Roxa, relata a complexidade de defender o alimento saudável a a natureza em meio à degradação provocada pelo agronegócio “É isso que é a nossa luta: a gente lutar para impedir, para não acontecer isso no nosso território. A gente não tem como mais usar a água da mina, nem de um riacho, porque é tudo contaminado. E o nosso reforço é a denúncia, fazer denúncia.”  

Ele destaca que orientação espiritual e política é seguir com a denúncia e diálogo com mais sujeitos. “E essa orientação vem para nós do nosso chamo’i [rezador]. O nosso chamo’i que orienta nossas comunidades diz que a gente tem essa possibilidade de desenvolver novamente a natureza que foi desmatada, que foi cortada. E o nosso chamo’i diz para nós que a gente tem que lutar, conscientizar, se reunir, né? Reunir com as pessoas. Não somente nós, mas todos, tanto nós indígenas, quanto não indígenas, né?”, complementa Elvio. 

A mesma realidade violenta alcança o Vale do Ribeira. Em Adrianópolis, a comunidade quilombola Córrego das Moças sofreu recentes impactos após a aplicação de agrotóxicos por meio de drones em propriedades vizinhas. O veneno carregado pelo vento atingiu diretamente a produção agroecológica das famílias quilombolas, inviabilizando plantios históricos e gerando prejuízos. 

Gedielson Ramos Santos, liderança do quilombo, alerta para a gravidade e a lentidão do processo de recuperação da terra após o crime ambiental. “[A terra vai] sofrer um processo de descontaminação para voltar. Exatamente. Pode levar tempo. Isso pode levar anos, porque daí a gente não sabe que tipo de produto que foi passado lá por enquanto”, destaca. A comunidade aguarda a coleta de material pela Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Apadar).