Por Fernanda Cruz, do site da ASA Brasil

Família de agricultores da comunidade de Bela Cruz, no semiárido cearense | Foto: Fernanda Oliveira / Asacom

Nesta semana, a FAO lançou para o mundo mais uma estratégia para acabar com a fome até 2030, desta vez colocando a agricultura familiar na centralidade para o cumprimento deste que é parte do 2º Objetivo do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Estruturado em 7 eixos, o plano de ação da Década da Agricultura Familiar (2019-2028) convoca governos e sociedade a repensar seus modos de vida. Segundo o documento, esta é uma “forma inclusiva, colaborativa e coerente” para se alcançar o objetivo.

O diretor-geral da FAO, José Graziano, lembrou que o ODS 2 refere-se também à má nutrição, que vêm levando milhares de pessoas à obesidade. “Uma coisa é muito clara: o link entre obesidade e sobrepeso com o consumo de alimentos ultraprocessados. Alimentos ultraprocessados não são comida de verdade, é uma imitação feita com químicos, muito açúcar ou sal”, ressaltou. Para Graziano o apoio à políticas que fortaleçam a agricultura familiar é a porta de entrada para a ampliação do consumo de produtos locais. “O que podemos fazer é consumir o que é produzido localmente, comidas nutritivas – frutas, vegetais, leite, ovos. Isso é o que os agricultores familiares fazem: comidas frescas e sustentáveis, preservando o meio ambiente e o planeta”.

Embora dez anos pareça bastante tempo, se algumas medidas urgentes não forem tomadas, esse período será insuficiente para colocar em prática esse plano de ação e alcançar o objetivo da Agenda 2030. Elementos fundamentais para a manutenção da agricultura familiar, como o direito à terra, ao território, à água, à valorização do conhecimento local, e conservação da biodiversidade foram apontados, sobretudo pela sociedade civil, como questões negligenciadas por grande parte dos governos. Para o coordenador da Articulação Semiárido Brasileiro, Alexandre Pires, é preciso considerar o ambiente político dos países. “Precisamos de um ambiente democrático para assegurar a participação da sociedade civil, no sentido de cooperação e mutualidade de ações para fortalecimento da agricultura familiar”, reivindica.

Ele ainda destaca a importância da luta dos povos tradicionais em defesa dos seus territórios para o sucesso da Década da Agricultura Familiar. “Essa é uma condição importante para o sucesso dessa iniciativa. O que significa dizer que é preciso combater, nos diversos países, as mais diversas formas de violência no campo, confrontando os interesses empresariais e econômicos. A luta e ação da ASA em defesa da convivência com o Semiárido nada mais é do que a luta do território com condições dignas para os povos que ali vivem. Não queremos ser expulsos seja por uma condição climática ou pela violência decorrente da própria ausência do estado”, diz Alexandre.

Infelizmente as ameaças impostas pelo agro e hidronegócio parecem não poupar ninguém. Para a coordenadora geral da Via Campesina Internacional, Elizabeth Mpofu, “não há tempo para discursos e sim para ação. Os campesinos e suas famílias sofrem e são assassinados em todo mundo em nome das grandes empresas. Agora precisamos pensar não apenas em dez anos, mas para toda vida. Precisamo fomentar uma agricultura familiar campesina que englobe os indígenas, pescadores, pastores, povos da montanha, enfim, todos os povos”. Ela ainda reforçou a importância do diálogo com as organizações locais para que o plano de ação possa, de fato, ser operado. “Dialoguem com as organizações campesinas não apena em âmbito internacional, porque todos precisam abraçar esse plano e ouvir essas vozes e as amplificarem. Em nome dos meus irmãos e irmãs convido todos a assumirem sua responsabilidade para êxito do plano”.

Para Alexandre, o desafio agora é fazer com que esse plano de ação seja implementado localmente. “A Frente em Defesa da Agricultura Familiar, a Frente em Defesa da Convivência com o Semiárido, o Fórum de Governadores do Nordeste e o Fórum de Secretários do Nordeste podem constituir mecanismos interessantes para fortalecer a agricultura familiar nos próximos anos na perspectiva do que está posto na Década da Agricultura Familiar”.

Papa Francisco também se pronuncia em defesa da agricultura familiar

Logomarca da Década da Agricultura Familiar

Em seu pronunciamento sobre a Década da Agricultura Familiar, o Papa Francisco também reconhece que a agricultura familiar tem contribuições não apenas para o setor agrícola mas para toda humanidade e para o meio ambiente. “A família ajuda a entender o vínculo entre humanidade, criação e agricultura. A partir de uma ação adequada, a autoridade pública pode trabalhar junto para o desenvolvimento da área rural, para o objetivo do bem comum”, defendeu Vossa Santidade.

O Papa também destacou o papel estratégico na vida dos jovens. “A agricultura não é apenas uma ferramenta de emprego, mas de desenvolvimento estratégico para muito países. Os objetivos da Agenda 2030 não podem ignorar os jovens e sua capacidade de inovação. É preciso renovar o sistema educativo prevendo o setor da agricultura e integrá-lo a esse trabalho. O sistema deve superar a transferência de conhecimento e prever um estilo de vida, uma espiritualidade que preveja uma resistência, que respeite os valores”.

Tanto os jovens, quanto as mulheres são temas em destaque no plano de ação da Década da Agricultura Familiar. Suas capacidades e contribuições ao mundo rural foram lembradas durante o evento de lançamento, com especial preocupação ao combate às desigualdades, discriminação e marginalização. O próprio Papa Francisco também ressaltou a contribuição significativa das mulheres na agricultura familiar: “Elas participam de todas as etapas, desde o plantio até a colheita”.

Glória Diaz, de Plan Del Jacote, Departamento de Chiquimula, na Guatemala, reconhece a verdade dessas palavras. Ela e mais 162 mulheres são as responsáveis por tirar as crianças da comunidade da situação de insegurança alimentar a partir da produção e comercialização de produtos locais. “As mulheres têm suas hortas ao lado de casa, as crianças e jovens também participam desse trabalho e não precisam sair dos seus lugares, não precisam migrar, pois podem viver da agricultura familiar na sua própria comunidade”.

A experiência de Glória foi compartilhada na mesa “De agricultor para agricultor: cooperação comunitária baseada na gestão de água fortalecendo a resiliência através do intercâmbio de conhecimento”. Ao ser perguntada sobre como se sentiu por ser uma das poucas agricultoras a ter essa oportunidade, ela respira fundo e diz: “Não tenho como expressar essa emoção porque pra mim foi surpreendente participar aqui em Roma, viajar para tão longe, estar num espaço tão importante. Eu contava uma história ao meu grupo que dizia ‘estamos trabalhando e pouco a pouco, algum dia, vamos à Roma’ e hoje estou aqui”.

Sobre os desafios para contribuir com o fim da fome através do seu trabalho como agricultora familiar, ela é categórica: “Gostaria de levar meu conhecimento a outras mulheres, mas é preciso investimento econômico para ir a outros municípios ou departamentos, para fazer os intercâmbios e apoiar outras organizações”.

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