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No Brasil líder no uso de agrotóxicos há 8 anos, IV Encontro Nacional de Agroecologia ilumina focos de resistência ao agronegócio

Enquanto o Brasil vive a discussão sobre o Pacote do Veneno, um Projeto de Lei que retira todos os controles legais que impedem o uso desenfreado de agrotóxicos nas lavouras e é, pelo 8º ano consecutivo, o maior consumidor de veneno no mundo, cerca de duas mil pessoas – vindas de Norte a Sul do país – se encontram em Belo Horizonte/MG para resistir ao agronegócio. Elas vêm anunciar que existe outro modelo de desenvolvimento, posto em prática por elas mesmas, e que conjuga sustentabilidade com geração de riquezas e justiça social. De 31 de maio e 3 de junho, a capital mineira sedia o IV Encontro Nacional de Agroecologia (IV ENA), no Parque Municipal Américo Renné Giannetti.

Das duas mil pessoas, metade são mulheres, que despontam como sujeitos políticos com grande capacidade de auto-organização e de resistência ao avanço do agronegócio. O ENA, aliás, é um espaço de convergência entre vários sujeitos políticos invisibilizados – povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores e agricultoras familiares – que vão trocar experiências agroecológicas, discutir os efeitos das políticas públicas para a agricultura familiar e dar visibilidade à agenda política do movimento.

Com o lema “Agreocologia e democracia unindo campo e cidade”, o IV ENA apresenta para a população urbana os múltiplos benefícios da agroecologia como a produção de alimentos saudáveis; a recuperação e conservação das fontes de água, da biodiversidade, das florestas e dos solos; a geração de renda na agricultura e a valorização das identidades e culturas dos povos e comunidades do campo. Esses benefícios respondem a um sem número de desafios vivenciados no Brasil, como a alta concentração de agrotóxicos nos alimentos, desmatamento, mortes de rios, concentração de renda, êxodo rural, aumento da pobreza, entre outros.

Ao reunir em um único local as mais variadas experiências agroecológicas, o IV ENA dá visibilidade a um movimento que, apesar do seu tamanho e importância no Brasil, na América Latina e no mundo, é pouco conhecido pela sociedade. “Este é um processo pouco visível porque são experiências localizadas e diversificadas entre si. Existe uma certa dificuldade em entender que práticas tão diferentes podem fazer parte de um mesmo tipo de ideia”, argumenta o Paulo Petersen, membro do comitê executivo do IV ENA, coordenador executivo da Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA) e vice-presidente da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA).

Para Paulo, essa é uma chance de desmentir informações amplamente difundidas na sociedade. “Uma das principais narrativas do que a gente chama de falsa verdade é a que o agrotóxico é um mal necessário. Essas são afirmações que confundem o debate público. A agroecologia demonstra que isto não é verdade e que é possível produzir em qualidade, diversidade e quantidade sem uso de veneno. O agrotóxico é um elo de uma cadeia de alimentos que precisa ser rompido, mas as políticas públicas continuam induzindo para o fortalecimento desse modelo”, afirma.

O desafio é apresentar à sociedade ‘por que interessa apoiar a agroecologia?’, apontando a viabilidade de fornecer comida sem veneno a preço acessível e trazer impactos positivos ao ecossistema e à saúde das pessoas.

Um exemplo é o de Paula Silva Ferreira, do território de Irecê, na Bahia, e representante da Rede de Agroecologia dos Povos da Mata – há 25 anos sua comunidade produz alimentos agroecológicos. “Venho de uma comunidade [Lagoa Funda/município Barro Alto] que resiste a esse sistema e mostra que é possível produzir alimentos orgânicos. Conseguimos a certificação participativa nessa resistência. Produzimos todo tipo de verduras, hortaliças, legumes numa escala de toneladas. Saímos da perspectiva do quintal para 10 a 15 toneladas de produtos orgânicos de 28 produtores”, relata.

A programação do IV ENA inclui Feira de Saberes e Sabores, alimentação agroecológica, oficinas, atividades culturais, atos e debates públicos sobre temas como água, mudanças climáticas, sementes crioulas, biodiversidade, juventude, mulheres, entre outros.

Plenárias

Com o objetivo de aprofundar reflexões e pactuar ações do movimento agroecológicos as plenárias serão a fonte de produção de conhecimento e troca de saberes do Encontro.

Entre os temas a serem debatidos durante o ENA estão:

●      Terra e território: povos indígenas, povos e comunidades tradicionais, reforma agrária – conflitos e resistências;

●      Construção social de mercados; vigilância sanitária e certificação;

●      Construção do conhecimento, comunicação e cultura;

●      Água: conservação e democratização do acesso e gestão;

●      Mulheres, feminismo e economia feminista e combate à violência;

●      Soberania alimentar e segurança alimentar e nutricional, culturas alimentares e nutrição; Agriculturas urbanas e direito à cidade;

●      Mudanças climáticas e agroecologia;

●      Sementes, sociobiodiversidade e plantas medicinais;

●      Construção do conhecimento agroecológico e educação do campo;

●      Agrotóxicos e transgênicos x alimentação saudável e questão da saúde;

●      Juventudes

Feira Saberes e Sabores

A Feira de Saberes e Sabores será um importante espaço de diálogo entre produtores e consumidores. Estarão expostos alimentos “in natura” e processados, artesanatos, tecnologias agroecológicas, produtos regionais e típicos de comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas e ribeirinhos.

Ao todo, serão cem barracas distribuídas pelo Parque Municipal. Dez delas funcionarão durante os quatro dias de evento, nos entornos da tenda principal, fornecendo alimentação aos participantes. As outras 90 irão operar nos dias 2 e 3 de junho, espalhadas pelo parque e abertas ao público em geral. Cada Estado brasileiro será representado por duas barracas, com exceção do Acre e do Mato Grosso do Sul, que terão uma cada. Além disso, as regiões de Minas Gerais e as organizações de referência de Belo Horizonte também terão duas barracas cada para exposição de mercadorias.

Ato Público e Alimentação agroecológica

O encerramento do Encontro, no domingo, 3 de junho, será marcado pela mobilização de um Ato Público. Marcado para às 8h, na Praça da Liberdade, o Ato culminará em um banquete 100% agroecológico no Parque Municipal.

 

 

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