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“Lutar pela agroecologia é lutar por um modelo com protagonismo dos jovens”, afirma especialista

Foto Amanda Sampaio

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Via AS-PTA

“Juventude Rural e o contexto político do Brasil” este foi o tema proposto à antropóloga e professora dos Programas de Pós Graduação em Ciências Sociais e em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Elisa Guaraná de Castro, convidada do encontro “Diálogos sobre Juventude e Agroecologia”. O evento é promovido pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) entre os dias 26 e 28 de outubro de 2016, em Recife-PE. Elisa é autora do livro “Entre ficar e sair – uma etnografia social da categoria juventude rural”.

A professora facilitou um momento de análise de conjuntura na tarde do primeiro dia de encontro (26) e iniciou sua fala fazendo um balanço sobre os últimos 15 anos em que, segundo ela, a juventude deixou de ser encarada como uma situação problema ou delinquência, para se constituir enquanto ator político: “Houve um reconhecimento social da juventude, que conquistou representatividade política e, não só foi reconhecida politicamente, como conquistou direitos e políticas públicas de e para a juventude. Vocês sabem que, historicamente, a juventude sempre atuou, mas ela hoje vem se reconhecendo enquanto juventude, enquanto uma voz ativa. Não é mais o ‘movimento estudantil’, por exemplo, como era na minha época”, disse.

Elisa lembrou alguns momentos marcantes para a juventude do campo, como a realização, em 2001, do 1º Encontro Nacional da Juventude Rural, em Brasília-DF, que trouxe visibilidade para a temática; a criação da Secretaria Nacional de Juventude, do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) e as políticas públicas de maior impacto para a juventude, já no primeiro Governo Lula. “Avançamos para dentro do diálogo sobre juventude no reconhecimento da diversidade. E nisso, uma representação política mais intensa e mais expressiva da juventude rural. Rompemos com o olhar da academia, muito focado só na saída do campo, para uma noção mais ampla e mais diversa, de entender quem é essa juventude, que na verdade são ‘juventudes’, uma pauta também diversa”, afirmou.

Para a professora, a grande política para a juventude rural foi a educação no campo, com a conquista de um marco legal com o Plano Nacional de Juventude e Sucessão Rural e o Decreto 7.352 sobre a Educação do Campo e ainda a ampliação do acesso à educação superior, entre os anos de 2003 a 2014, que antes era restrita às elites: “Mesmo que não seja enxergada pelos jovens como política pública, esta foi a grande política. E partia da ideia de que não bastava ampliar o número de universidades, mas investir em assistência estudantil para garantir o acesso do jovem ao ensino superior”.

Em seu balanço, a pesquisadora pontuou as áreas em que não se avançou e citou como exemplo o preconceito na cidade e dentro da própria zona rural: “A juventude do campo ainda é muito associada ao atraso, o que faz com que o jovem esconda a sua identidade. Há também o preconceito dentro das comunidades. Eu escuto muito hoje esse depoimento: ‘eu não sou de lugar nenhum: quando vou para o meu assentamento, eles dizem que eu sou muito urbano e quando vou para a cidade, me acham rural’. Mas o jovem de hoje rompe com estas construções, o quilombola do Rio de Janeiro gosta de funk e de umbigada também, para a loucura dos antropólogos como eu”, brincou.

Foto Amanda Sampaio

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A professora citou ainda como desafios a desvalorização do jovem por parte das famílias e a ausência de um política pública nacional integrada para as juventudes rurais, que incorporasse a diversidade regional e fortalecesse o projeto político da agroecologia. “É preciso saber que lutar pela agroecologia é lutar por um modelo com protagonismo intenso dos jovens. É uma luta que está junta da outra. Discutir um projeto é discutir também o protagonismo dos sujeitos”.

Por fim, Elisa analisou a juventude no contexto brasileiro atual de ascensão de um governo por meio de um golpe parlamentar, jurídico-midiático. Para a especialista, embora os governos do PT tenham representado uma ruptura com o neoliberalismo e o Estado mínimo, houve diversas ‘continuidades’, que revelam suas principais contradições: “Esse golpe é o golpe das continuidades, do rompimento com a conciliação de dois modelos, do fortalecimento do agronegócio, da não realização da reforma agrária, das grandes obras. A sociedade incorporou a questão da alimentação saudável. De alguma maneira, as pessoas captaram que comer com agrotóxico não é legal. Mas isso não fez com que elas compreendessem o que está por trás dessa produção, que se apoia na agricultura familiar e que é preciso apoiá-la”.

A especialista finalizou lembrando os inúmeros retrocessos que estão em curso e que ameaçam as muitas conquistas, com cortes drásticos de recursos em áreas estratégicas, inclusive a possibilidade de que as famílias assentadas vendam seus lotes, forçando que o que o Estado comprou volte ao mercado da especulação fundiária, como bem lembrou Alexandre Pires, assessor técnico do Centro Sabiá: “Sem uma assistência técnica mais presente, sem acesso a crédito, as famílias vão fatalmente vender a terra e isso será usado pelo governo golpista para dizer que não vale à pena fazer a reforma agrária”, frisou.

De acordo com a especialista, o que estamos vendo hoje é uma elite fundiária escravocrata, violenta e predatória, tanto da natureza, quanto do trabalho: “Ela não aceita um milímetro de avanço. Quer o máximo, com o mínimo de direitos. O golpe unifica as elites agrária e financeira. Eles estão muito organizados e não haverá um caminho rápido e fácil para a resistência. Precisamos lutar para não perder nenhum direito e garantir que nossos territórios vão resistir à ofensiva. Felizmente é um momento de alta organização da juventude com uma clareza de que o que ela conquistou, não pode perder”.

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