ofina seropedicaEstimular a formação de um novo olhar à Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), esse foi uma das principais diretrizes do Primeiro Módulo sobre “Análise dos Agroecossistemas”, da Oficina Gestão Econômica da Transição Agroecológica. Cerca de 40 pessoas, dentre elas estudantes, pesquisadores, extensionistas e agricultores, incluindo um representante de um núcleo de agroecologia do Espírito Santo, São Paulo e Minas Gerais, participaram entre os dias 28 e 30 de julho, em Seropédica, Baixada Fluminense, da primeira etapa do processo, que é promovido pela Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro (AARJ) e o Núcleo Interdisciplinar de Agroecologia (NIA) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. O próximo módulo está previsto para o final de setembro ou começo de outubro em Casimiro de Abreu, no Rio de Janeiro.

 

A oficina ocorreu no âmbito do Projeto “Ambientes de Interação Agroecológica: Ensino, Pesquisa e Expressões da Agroecologia no Estado do Rio de Janeiro”, e teve como objetivo a formação de multiplicadores da metodologia ensinada e aplicada durante as atividades. Além das análises conceituais apresentadas, foram realizadas quatro em diferentes agroecossistemas de famílias agricultoras localizadas nas proximidades de Seropédica. Cada grupo produziu sistematizações para o compartilhamento de saberes ao final do primeiro módulo.

facilitacao seropedicaA metodologia exercitada na oficina é resultado de acúmulos de pesquisas e análises de experiências que buscam sob novos óculos, analisar as estratégias utilizadas pela agricultura familiar camponesa, cuja economia clássica é incapaz de perceber da atividade agrícola familiar.

Claudemar, assessor técnico da ASPTA e membro do Grupo Executivo da AARJ, destaca a importante parceria entre a sociedade civil e as instituições públicas, como é o caso do Projeto. “O diálogo estabelecido por meio da realização das atividades do projeto, e em especial a oficina Gestão Econômica da Transição Agroecológica, possibilita a troca dos diferentes olhares e saberes que se envolvem no campo. Esta é uma das principais características do enfoque agroecológico, a multi e transdisciplinariedade!”

Temas como os fluxos econômicos, o diálogo com as experiências acumuladas pelos agricultores e agricultoras e o fortalecimento de espaços de troca entre articuladores da agroecologia nas regiões, dentre outros elementos, marcaram o desenvolvimento desse primeiro módulo do curso. Cabe destacar também a percepção sobre a autonomia das famílias, uma das principais contribuições da metodologia. Agora, a proposta é a replicação das oficinas em diversos territórios.

Visitas aos territórios

visita agroecologicaOs participantes se dividiram em grupos e realizaram quatro visitas em propriedades com características distintas. O objetivo foi contrastar as avaliações, que seguiram uma metodologia inovadora em relação ao modelo convencional utilizado nas abordagens de ATER . De acordo com Paulo Petersen, coordenador da ONG AS-PTA, que facilitou as atividades, o desafio é construir um conhecimento compartilhado lidando com questões complexas que envolvem a agricultura. É preciso, complementou o agrônomo, comparar os conceitos da gestão empresarial e camponesa para, através do olhar agroecológico, pensar a recampenização do meio rural.

“Fomos condicionados a pensar de forma muito simplificada, o que dificulta compreendermos a complexidade do funcionamento da agricultura familiar em suas relações com os territórios em que se desenvolve. A maneira como observamos o mundo da agricultura familiar é baseada em poucos indicadores que simplificam em excesso a realidade em que ela vive e se reproduz. Dessa forma, fazemos categorizações que dificultam o efetivo diálogo entre os técnicos e os agricultores. O exercício que estamos fazendo nos ajuda a visualizar as dinâmicas complexas a partir de alguns conceitos-chave e metodologias de representação gráfica. Queremos entender as estratégias de gestão dos agroecossistemas que diferentes famílias adotam. Dessa forma, podemos distinguir estratégias mais camponesas ou mais empresariais. Por meio do enfoque sistêmico podemos adquirir e organizar conhecimentos e forma bastante rápida porque buscamos entender as relações que explicam o funcionamento econômico-ecológico”, afirmou.

agricultora isabelA experiência do casal Isabel e Augusto, no assentamento Eldorado, em Seropédica, foi uma das visitadas. Num terreno de 5,5 hectares produzem diversos produtos para comercialização na Feira Orgânica da Glória, na zona sul do Rio. Seu contato com a agroecologia se deu a partir de 1991, quando conheceu uma experiência orgânica no Espírito Santo, e anos depois criaram o grupo SerOrgânico. Com cerca de 20 pessoas e certificação participativa, o acesso ao mercado é o principal motivador dos integrantes, além do custo reduzido de produção e a saúde. Isabel perdeu um irmão por conta do contato durante com venenos no plantio. Têm projetos em parceria com órgãos públicos, e diversificam sua produção de sementes, plantas medicinais, hortaliças, agrofloresta, pomar, estufa, milharal, etc. É uma das poucas famílias que conseguiu resistir no território, e tem servido de exemplo aos vizinhos.

Outra experiência visitada foi a do José Ferreira, com uma agricultura baseada no monocultivo de coqueirais e a pecuária de corte, os 140 hectares do Sítio São José, em Itaguaí, apresenta um sistema de produção convencional. . José Ferreira é o único dos seis herdeiros da fazenda que desde a década de 90, quando houve o auge do coco no Rio, toma conta dos negócios no atual terreno. Morador de Campo Grande, o empresário tem hoje 200 cabeças de gado, abatidas fora da fazenda e vendidas em Valença. Há 8 anos vem substituindo o coco pelos pastos, embora tenha dito que sua paixão é o coco. Mesmo em um agroecossistema convencional foi percebido pelo grupo práticas ecológicas, José Ferreira busca inovações tecnológicas, de forma a avaliar os melhoramentos da produção e diminuir os custos da produção. É um sistema empresarial, sua maior característica é a quantidade de insumos e produtos provenientes de fora do território, como é o caso do da fertirrigação com insumos químicos. Ademais não aproveita o esterco do gado, ao contrário, compra do vizinho. No diagrama de fluxo de insumos e produtos ficou claro a necessidade que José Ferreira tem de adquirir produtos de fora, nenhuma renda não monetária foi evidenciada, no entanto, é um sistema que se mantém desde 1972 na mesma família, mesmo havendo ameaças como a TKCSA, empresa de siderurgia que se instalou na região da Baía de Sepetiba.

Inovação metodológica

visitas moduloAs outras duas visitas possuem sistemas intermediários em relação aos dois extremos apresentados, no sentido da diversificação da produção e dependência ou não aos fatores externos. Mostram os graus de produção dentro e fora da agricultura familiar, com modelos mais ou menos sustentáveis e ou comerciais, refletindo a complexidade de fatores envolvidos nas análises. Após as visitas os participantes se reuniram para avaliar os trabalhos realizados. O mapa do território, a linha do tempo contextualizando a história local, e o diagrama de fluxo estabelecendo relações internas e externas dos sistemas foram elogiados como método de observação.

Muitos observaram que os estudos precisam ser aprofundados, devido à limitação de uma visita rápida, e analisar com mais calma onde a renda está sendo, ou não, suficiente nos agroecossistemas do território. A autonomia dos agricultores é um dos pontos centrais das observações, no sentido de perceber o grau de dependência dos insumos externos à produção, complementaram. Um sistema mais diversificado possibilita fontes de renda mais amplas, menor custo de produção, mais flexibilidade e menos dependência de mercados, dentre outros fatores, segundo os participantes.

visita experiencia“Mostra a fragilidade e alternativas ao sistema, apontando possíveis problemas futuros. Sem isso o agricultor não consegue enxergar outras oportunidades, além da melhor visualização dos problemas”, afirmou Guilherme Strauch, Gerente de Agroecologia da Emater Rio. “O mapa mostra o grau de autonomia da propriedade, coisa que os agricultores muitas vezes não têm clareza no conjunto. E para as pessoas que trabalham com extensão, o potencial que se desenvolve em conjunto, a possiblidade dos agricultores compararem essas avaliações. Muitas limitações estão relacionadas a limitantes externos, e os agricultores podem refletir sobre isso”, complementou Flavia Londres, da secretaria executiva da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA).

(*) Fotos Renato Consentino, Renato Nazário e Natália Almeida.

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