IMG 1395Conversamos durante a II Mostra Nacional de Produção das Margaridas, realizada entre os dias 21 e 24 de março, em Brasília, com Alberto Broch, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), uma das principais organizações no meio rural brasileiro. Na entrevista, ele reconhece os importantes avanços realizados nos últimos anos com os governos do Partido dos Trabalhadores (PT), mas destaca que ainda há muitos desafios a enfrentar. A questão fundiária e uma transição do modelo de produção para a agroecologia, segundo ele, são fundamentais para pensar o desenvolvimento do país. O importante no momento, de acordo com Broch, é não haver retrocessos e lutar por mais avanços no meio rural.

Qual é a avaliação dos movimentos do campo em relação ao governo?

Nós reconhecemos avanços importantes e significativos, em algumas áreas avanços muito relevantes. Isso porque fomos atores desse processo através dos gritos da terra, das negociações com o governo federal, das intensas mobilizações e propostas. É inegável avanços no reconhecimento do estado brasileiro em políticas públicas, principalmente no contexto da agricultura familiar brasileira. Tanto é que se nós pegarmos os últimos 12 anos temos um patamar de recursos somados, carimbados para agricultura familiar, que não chegava a R$ 3 bilhões. E nas últimas negociações chegamos a R$ 20 bilhões, então é importante reconhecer isso. Esboços de políticas públicas como compras governamentais, legislações que estão sendo adequadas, etc. Porém, pela dívida que o estado tem com o campo, a agricultura familiar, o desenvolvimento sustentável, os trabalhadores e trabalhadoras rurais, isso é muito pouco. Principalmente porque há uma necessidade de atualização dessas políticas, e ao mesmo tempo o grande desafio é fazer com que elas cheguem ao campo: muitos agricultores não têm acesso às políticas públicas.

Outro enorme desafio é a questão agrária, este tema de fato não avançou. Temos um déficit enorme no sentido da melhoria dos atuais assentamentos, infelizmente alguns ainda vivem na cesta básica. Não conseguem produzir para a auto sustentação, em função das políticas não terem chegado. Não receberam os créditos, os lotes não foram regularizados, não chegou habitação rural, energia elétrica, então nós precisamos sem dúvida nenhuma de qualidade, uma força tarefa para melhorar os atuais assentamentos. Como também temos aqueles que estão produzindo muito bem integrados aos mercados, inclusive exportando. A outra questão agrária é a obtenção de terras, precisamos ainda para um país tão injusto na questão da estrutura agrária fazer com que um programa de reforma agrária possa chegar a milhares de famílias que querem um pedaço de terra para trabalhar. Então, esta contextualização andou muito devagar nesses últimos anos. E a Contag está muito vigilante, no sentido de que esta pauta não pode parar.

O que seria propositivo nesse sentido, mudanças no Incra?

Em primeiro lugar precisa ter um grande projeto, coisa que o governo no Brasil não tem. O que existe é muito pouco, muito paliativo, é insuficiente. É preciso ter um grande projeto que trabalhe a questão da estrutura agrária integral na articulação de políticas, não basta só acesso a terra: é preciso assistência técnica, pesquisa, educação, discussão de integração com os mercados, agroindústria, acesso, etc. Então, é um conjunto de políticas e para isso é preciso ter um grande projeto político para o campo, principalmente no que se refere à reforma agrária, que ainda está longe.

Nós precisamos, cada vez mais, discutir o modelo de produção. Temos ainda um modelo de produção calcado no consumo exagerado de agrotóxicos e agroquímicos. É preciso passar por um processo de transição agroecológica. O agricultor não vai fazer sozinho, ele precisa de uma política para isso, até porque foi ensinado a fazer isso nos últimos anos. Então precisamos de uma transição para um modelo mais sustentável de agricultura no Brasil, que envolve a Embrapa, os bancos, assistência técnica, uma diretriz política de um novo padrão tecnológico. Reconhecemos avanços significativos, nos orgulhamos deles, mas sabemos que o desafio é muito grande para colocar a agricultura familiar brasileira no patamar que ela e o Brasil merecem e os agricultores tanto sonham.

Como está esse diálogo com o governo do PT após anos de poucos avanços com o PSDB à frente? E quais são as perspectivas?

Nós não nos pautamos em cima dos partidos políticos, nós militamos no PT e outros em partidos de esquerda, mas achamos que o governo do PT fez a diferença em relação a tudo que já aconteceu no Brasil. Nesse aspecto não me refiro somente ao campo, mas ao país como um todo. Sem dúvida é um país que caminha para o seu desenvolvimento, que deixou de viver na invisibilidade, tem um papel na economia mundial, e isso se deu principalmente com o governo do presidente Lula. Não significa que as coisas estão resolvidas em âmbito geral para o país, e nem em relação à agricultura. Tem um longo caminho para ser trilhado, o importante é que não haja retrocesso, precisamos só avançar.
Uma coisa importante a ressaltar é que inclusive essa Mostra é uma forma de contrapor esse modelo hegemônico de agroindustrialização, onde meia dúzia de empresas domina o mercado, a transformação e gôndolas de supermercados. Pregamos um modelo mais heterogêneo, aonde as vocações regionais possam ser integradas, que haja um incentivo à agroindustrialização. É isso que as mulheres estão apresentando aqui nessa II Mostra Nacional da Produção das Margaridas: é possível superar a pobreza, a miséria, a fome e a segurança alimentar. Transformar isso num processo auto sustentável do ponto de vista do abastecimento dos mercados, tendo uma reflexão muito séria sobre o modelo de agroindustralização brasileiro. Importante é que haja um incentivo às nossas iniciativas das cooperativas, associações, e a transformação da nossa matéria prima em produtos cada vez mais sustentáveis.

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