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“Com o protagonismo da população é possível fazer uma política diferente”, diz diretor da ASA

IMG 0343Ouvimos durante o VIII EnconASA, em Januária (MG), o coordenador executivo da Articulação no Semiárido (ASA) na Bahia, Naidson Baptista Quintella, que também é conselheiro do Consea. Na entrevista ele faz um balanço das atividades da ASA e aponta algumas perspectivas para 2013. Na sua visão, as sementes crioulas podem se tornar prioridade nas frentes de luta da organização. Observa também que e as iniciativas do povo do semiárido devem ser valorizadas e incorporadas às políticas públicas, além de estimular a cultura do estoque na região. E a relação com o governo, segundo ele, é de disputa mas reconhecendo alguns avanços.

 

O que a ASA tem trabalhado até o VIII Encontro e quais são as expectativas a partir dessas atividades?

Desde a sua criação a ASA vem marcando um espaço de mostrar e demonstrar valores para a população brasileira, os políticos e o governo, que o semiárido é um espaço viável. Não é um espaço da inviabilidade, da morte ou dos sem jeito, é o espaço da viabilidade e da pluralidade. Nesses 12 anos de ação ela mostrou suficientemente ao povo e ao governo brasileiro, os governos estaduais, que o que falta são políticas adequadas ao semiárido. Muitas vezes se coloca que é inviável porque não chove, a natureza é perversa, o povo não é inteligente e não encontra as soluções plausíveis aos seus problemas.

Você se refere à convivência com o semiárido, que foi o ponto chave do VIII EnconASA?

Quando a ASA mostra para o Brasil e o mundo a dimensão da convivência, afirma que podemos inverter o processo. Ao invés de brigar contra a seca, como não se briga contra a neve ou fenômenos naturais em outros espaços do mundo, também não devemos combater a seca. Temos que criar condições de conviver com ela, e essas condições estão pautadas num fenômeno que chamamos de cultura do estoque. É educar a população e criar condições para que ela possa criar esses estoques. Na perspectiva da água para o consumo humano estamos chegando na universalização das cisternas, até o final do governo Dilma deve chegar em 1,2 milhão famílias contempladas com água no semiárido. É um número ímpar e significativo, que significa 6 milhões de pessoas. Antes essas pessoas bebiam lama, água suja ou poluída, e tinham diarreia, problemas de saúde, morriam ou tinham que andar distâncias enormes para pegar uma lata de água. Com o protagonismo da população mostramos que é possível fazer uma política diferente. Negociamos e trabalhamos com o governo Lula e agora com o governo Dilma, além dos governos estaduais, a construção dessa política. Esse EnconASA celebra isso.

Temos que criar também o estoque de água para produção, de alimentos para os animais, de sementes crioulas, que são adequadas ao ambiente e não as sementes transgênicas vindas do sul ou de outro estado. As sementes locais germinam e são hoje cientificamente comprovadas que dão mais frutos do que outras; a pesquisa que se fez na Paraíba demonstra isso. Precisamos ainda de estoques de forragens, de animais adequados, porque às vezes em nome de melhoria da raça você traz animais de outro canto que não são adequados à convivência com o semiárido. Estoque de alimentação para os animais preservando a caatinga, ao invés de derrubá-la para o carvão ou outras atividades. Com a sua conservação ali dentro tem alimento para as pessoas e os animais. Assim você cria um contexto de convivência.

Vários agricultores que já experimentaram essa dimensão da cultura do estoque na sua amplitude estão convivendo com essa seca sem precisar de carro pipa, esmola, cesta básica, etc. Um agricultor da Bahia criou uma bomba, e ao receber uma cisterna calçadão do projeto ele fez outra e construiu pequenas barragens na sua propriedade: diz que tem água suficiente para ir até final de fevereiro, e seus animais comida até março porque ele guardou. Quando chove ele retoma o processo, então é uma perspectiva de autonomia, protagonismo e solução. O EnconASA está celebrando essas coisas na pluralidade e originalidade das organizações, no respeito ao que cada uma é ou quer, mas também na busca de elementos comuns de ação. Esse é um dos segredos da ASA, há espinhas dorsais que são comuns e outras da pluralidade das organizações. Tem organizações que trabalham com a educação contextualizada e outras não, tem umas que se dedicam mais ao crédito e outras menos, umas querem entrar no campo da comercialização e outras menos, algumas vão pelas agroflorestas e outras não, mas você está criando cada vez mais campos comuns que são da convivência com o semiárido.

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Além da questão da água, quais são as outras prioridades em termos de frente de lutas?

Há um sinal, por exemplo, na perspectiva de tornar as sementes um eixo básico da ASA. Porque o P1MC em 2013 se esgota, a cisterna para consumo humano, e ficamos com a água de produção, o P1+2, que vai demorar bastante. Outra frente é na perspectiva mais especificada da agroecologia, porque o conjunto da ASA é agroecológico mas precisamos definir mais linhas de ação nesse campo. Há debates e grupos que enxergam com muito interesse a perspectiva de uma presença mais agressiva na comercialização dos produtos, principalmente o mercado institucional (PAA, PNAE, etc), mas isso talvez seja um pouco difícil porque nem todo mundo está manipulando esse campo. As sementes é o que mais se adequa na dimensão que a ASA trabalha: debater as questões, mas fazer elas acontecerem. Esse binômio que faz a ASA caminhar, porque mexe com o sentimento, a vida e o dia a dia das pessoas.

Há avaliações de movimentos que afirmam que o governo tem uma política hegemônica a favor do agronegócio e contra uma perspectiva agroecológica. Qual a avaliação da ASA no diálogo com o governo?

Não temos nenhuma dúvida que o governo tem preferência por uma linha, que é do agronegócio. As manifestações do governo estão aí claras a esse respeito, mas para nós é evidente também que ele tem outras linhas de ação. Está em curso a implantação da política de agroecologia, o processo de erradicação da miséria, assim como as cisternas, então há várias linhas. Mas o governo não é só essa hegemonia, é um governo de disputa. E a gente tem que se fortalecer para entrar nela, então vamos para uma parceria com o governo mas não entregamos os pontos. Se determinado ponto não nos interessa e é contra o que avaliamos, nós não vamos.

Mas há brechas no governo de avanços nas parcerias com a ASA para além das políticas públicas que já estão em curso?

Há, recua, a gente empurra novamente, é esse processo. Ano passado, por exemplo, o governo praticamente disse que não faria mais parceria com a ASA, então fomos para a praça fazer manifestação. Disseram que não fariam mais as cisternas conosco, por causa de decretos e aquela roubalheira do ministério dos esportes. Nós dissemos à ministra que os ladrões não estão na ASA, e sim em outros espaços que ela sabe onde estão. Ela não vai parar no jornal como má gestora de recursos públicos por causa da ASA. Se ela não quer, vamos brigar para ela querer. Então disputamos o espaço nos ministérios, no Consea, nos jornais, aonde a gente podia disputar, conseguimos mais espaço para publicação do que o próprio MDS. E perderam espaço na praça pública, porque ocupamos a ponte entre Petrolina e Juazeiro, com 15 mil pessoas numa manifestação construída em 8 dias às custas da população. Não foi com o apoio de ninguém do governo. Teve recolhimento das comunidades, que se cotizaram para ir, então colocamos 15 mil pessoas e o diálogo foi restabelecido.

A avaliação da ASA é que vamos dialogar, construir parcerias, mas não esqueceremos que os movimentos sociais sempre utilizaram a praça pública e a manifestação para buscar valer suas opiniões e propostas. Nesse ano já estamos renovando os convênios pacificamente sem maiores problemas, então é um processo de vai e vem que depende de gestor para gestor. Não é fácil, porque quando você vai se acostumando o gestor muda e vem outro com outra equipe totalmente diferente. E você tem que fazer com que as pessoas entendam. Mas considerações: a cisterna é uma política, a água de produzir é uma política, o Consea monitora isso junto com muitas ações pelo semiárido, então estamos num patamar diferente. Claro que não estamos com nada ganho, tem que lutar e o EnconASA nesse sentido é um espaço de acúmulo de energias. Porque vemos quais passos já demos, e mostrarmos que somos capazes de chegar lá na frente.

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