Participar de evento como o 4° Seminário de Agroecologia, ocorrido nos dias 16 a 19 de outubro deste ano, em Gloria de Dourados, renova nossa esperança, renova nossas forças e nos dá a certeza de que vale a pena continuar a luta por um OUTRO MUNDO POSSIVEL.

A começar pelo lema do seminário “O saber tradicional e o científico: a interação encurtando caminhos para o desenvolvimento sustentável” dá uma amostra da grandeza que foi o evento.

Para os defensores do progresso e das chamadas tecnologias modernas, e que reconhecem como única forma de conhecimento verdadeiro ser o acadêmico (chamado muitas vezes também de cientifico), este lema do seminário deve ter soado como um retrocesso cientifico na história. Mas para aqueles que acreditam que o conhecimento acadêmico e as chamadas tecnologias modernas somente são verdadeiros e necessárias se estiverem a serviço dos interesses da maioria da população, contribuindo para uma existência harmoniosa entre o homem e a natureza, entendem perfeitamente a importância de se valorizar os saberes tradicionais/populares/empíricos, que são fruto de anos convivência do homem com a natureza, respeitando o seu tempo e o seu ritmo para produzir.

Diferentemente do modo capitalista de produzir para quem “tempo é dinheiro” e sempre buscará na pesquisa cientifica, tecnologias que possibilitem a aceleração do crescimento e redução de tempo do ciclo necessário para produção de uma determinada cultura, mesmo que para isso seja necessário violentar os princípios da natureza. Esta é a agricultura capitalista, hoje também conhecida como agronegócio, que visa simplesmente o lucro. É agricultura transformada em negócio e não visa produzir alimentos para eliminar a fome no mundo. Em vista disso, para este modelo, o uso abusivo de agroquímicos se justifica desde que maximize o lucro do capitalista. Por isso Josué de Castro teve razão ao afirmar que o problema da fome no mundo é um problema político e não de técnicas de produção.

A agroecologia por sua vez, vem na contramão desta lógica perversa da agricultura capitalista como foi muito bem exposto nos mais de 140 trabalhos científicos inscritos no evento e na fala dos palestrantes, principalmente na apresentação oral de experiências agroecológicas feita pelos camponeses e técnicos comprometidos com a saúde das pessoas e do planeta.

Neste sentido, foi afirmado pelos expositores que a agroecologia se orienta por alguns princípios que vão na direção contrária do modo capitalista de produzir. O modelo de agricultura capitalista está baseado na monocultura, na produção em alta escala, na mecanização pesada e no uso intensivo de agroquímicos (venenos). E no final tem por objetivo reduzir a mão de obra e maximizar o lucro. Neste sentido hoje presenciamos cada vez mais uma agricultura sem agricultores.

Por sua vez, a produção no sistema agroecológico pelo fato de usar o principio do equilíbrio na natureza (sistema agroflorestal que conta com a diversidade de plantas, de seres vivos, não dá doenças/pragas) como fundamental para que a produção agroecológica, evitando a introdução de insumos externos (agroquímicos), seja viável. Para a agroecologia as plantas que competem com as plantas cultivadas não são vistas como “ervas daninhas” que devem ser eliminadas com herbicidas. Os insetos considerados “pragas” no sistema de cultivo convencional precisam ser controlados com venenos. No sistema agroecológico podem ser controlados por processos naturais, introduzindo determinadas plantas atrativas ou repelentes destes insetos (exemplo plantar arruda) ou facilitar a presença de aves que se alimentam destes insetos.

Outro princípio muito importante na agroecologia é a humildade e a capacidade de partilhar dos camponeses. Socializar os conhecimentos, os experimentos que foram positivos é compromisso ético. Realizar a troca de saberes como durante toda a historia do desenvolvimento da agricultura, os camponeses sempre o fizeram. Conhecimentos que sempre foram repassados de pai para filho até os nossos dias. A biotecnologia pesada, tão valorizada na atualidade, não é coisa do século XXI. A criação do milho, da mandioca, do algodão colorido, é resultado de seleções realizadas pelos camponeses há milhares de anos atrás. O professor Alberto Feiden, pesquisador da Embrapa Pantanal, afirmou em sua palestra que o milho foi desenvolvido há 7.000 anos pelos povos do México e o algodão colorido pelos povos do Peru e Bolívia, há 6.500 anos. E a pesquisa agrícola científica possui tão somente 170 anos.

Estes dois princípios agroecológicos são fundamentais para garantir a autonomia dos camponeses. Ter o conhecimento e o domínio de como plantar, quando plantar, onde plantar e o que plantar sem depender dos pacotes oferecidos pelas grandes empresas controladoras das sementes e dos agroquímicos, é ser uma cunha cravada/fincada nas contradições do sistema capitalista de produção.

(*) Matéria reproduzida da Adital, feita por Mieceslau Kudlavicz (Geógrafo e agente da Comissão Pastoral da Terra – CPT/MS)

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