asacomPor Verônica Pragana – Asacom/Januária – MG

A ASA Minas tem trabalhado sem parar na preparação do VIII Encontro da ASA (EnconASA). O processo exigente de busca de parceria e de criação de condições para que o evento aconteça tem sido, sobretudo, uma oportunidade de formação para os envolvidos. Pelo menos, esta é a realidade das oficinas para sistematização das experiências que serão visitadas durante o EnconASA.

O evento vai ser realizado daqui a três meses no município de Januária, no Norte de Minas Gerais. Na sua programação, estão previstos 20 intercâmbios que vai promover a troca de conhecimento entre homens e mulheres do Semiárido nordestino e mineiro.

“Assim como nos intercâmbios, as sistematizações nos alimentam para as oficinas temáticas nas quais, à luz do que visitamos e do que conheceremos pelas apresentações das sistematizações que os estados visitantes vão nos trazer, abordaremos os temas recheados de prática e teoria, casamento tão importante para a construção coletiva do conhecimento”, acrescenta Valquíria Smith, coordenadora executiva da ASA pelo estado de Minas Gerais.

Preparação para o EnconASA – A metodologia adotada nas oficinas de sistematização favorece um ambiente de reflexão que, por sua vez, tem provocado outro olhar sobre as experiências sistematizadas. Um olhar que busca a leitura sistêmica da realidade e não se limita a reduzir a experiência a um aspecto pontual. Diga-se de passagem, este é um grande desafio para quem se propõe a sistematizar a prática de algum agricultor ou agricultora familiar ou de um grupo de pessoas que têm conseguido mudar a sua realidade.

Por isso, escolheu-se trabalhar a sistematização de forma coletiva, promovendo o encontro e a troca de conhecimento entre profissionais da área de comunicação das instituições da ASA e assessores técnicos que conhecem e acompanham as famílias e as comunidades há anos, sem abrir mão da contribuição de quem atua nas áreas administrativa e financeira das organizações.

“Os mutirões conduzem ao novo, ao olhar coletivo que é muito mais amplo. Há uma partilha entre o grupo dos alcances e perspectivas da experiência que está sendo sistematizada. Esse construir coletivo tira o peso do indivíduo. E isso parece repercutir e transformar mais a nossa postura de atuação dentro da comunidade”, afirma Priscilla Souza, comunicadora da Cáritas Diocesana de Januária e da ASA Minas.

A estrutura metodológica desta oficina está sustentada em três momentos: reflexão – prática – reflexão. A primeira reflexão é sobre a experiência para elencar as dimensões coexistentes. Esse exercício prepara melhor para ampliar o foco de observação ao chegar na comunidade. Depois, vem a prática da sistematização, colocar a mão na massa para entrevistar, observar e escrever. Depois do texto escrito ou iniciado, vem o ápice da oficina, o momento em que se analisa o conteúdo escrito e possibilita a geração de muitos aprendizados sobre a arte de sistematizar.

Momento 1 – Antes de sair a campo para entrevistar e tirar fotos, todos juntos levantam diversos elementos e dimensões que devem ser observados na conversa com as pessoas envolvidas na experiência, seja através do dito, do não dito, do visto e percebido através de outros canais sensitivos. A equipe multidisciplinar ajuda a identificar fatores que faltariam caso o exercício fosse feito de forma individual ou em grupos que atuam na mesma função.

Momento 2 – Com essa espécie de mapa traçado, grupos de três pessoas caem em campo para conhecer a experiência. A orientação é conversar com o máximo de pessoas envolvidas. Assim, se pode mergulhar na experiência através de diferentes perspectivas – quem criou, quem faz a gestão, quem executa, quem recebe os impactos da ação, etc. Neste momento, é interessante estar atento para estimular a participação da mulher que, em geral, está presente, mas não fala, prepara o alimento para receber os visitantes, mas não lhe cabe o papel de dar entrevista ao interessado em conhecer a história da família.

O passo seguinte é construir o texto de forma coletiva. O que não significa que o texto precise ser construído a muitas mãos. Pode ser bem mais eficiente neste processo criativo, discutir a estrutura que o relato deve ter, antes de começar a escrevê-lo. Esta estrutura equivale ao esqueleto do texto. Quais as informações que devem constar na sua abertura, desenvolvimento e desfecho. Deve-se pensar também como estas ideias estão conectadas, qual o fio condutor que as organizam na exposição das informações. Com a estrutura discutida, uma pessoa com mais habilidade com a escrita pode desenhar a primeira versão do texto.

Momento 3 – O esboço inicial, geralmente, é apresentado na etapa seguinte da oficina. Esta etapa consiste na leitura do texto para um grupo maior do que o envolvido na sistematização daquela experiência. Como, antes da leitura, o grupo sistematizador conta como foi a visita e antecipa alguns aspectos que chamaram mais a atenção, é comum acontecer uma dissociação entre a fala do grupo e o que está escrito.

Esse desencontro acontece porque a escrita requer o discernimento entre informações essenciais para se contar aquela história e as informações secundárias. Não é possível escrever sobre tudo o que foi percebido porque há o limite concreto de tamanho de texto. Para escolher o conteúdo que entra e o que fica fora do relato, a conversa com o outro ajuda porque nos faz organizar nossos pensamentos.

As reflexões sobre o texto já escrito ou iniciado esclarecem, sobremaneira, o rumo que o texto tomou, muitas vezes, de forma não tão consciente, e explicitam quais os arranjos que podem ser feitos para que este rumo responda às questões centrais da experiência.

Esta reflexão sobre o ato de escrever ajuda a construir o aprendizado sobre a ação. “Quando não refletirmos sobre nossas práticas, deixamos de perceber a singularidade da nossa vivencia e de relacionar o que fazemos com o que sonhamos. Paulo Freire dizia que mais vale uma única experiência avaliada e sistematizada do que mil ações nunca analisadas e reinterpretadas criticamente”, acrescenta Márcio Lima, assessor da Cáritas Regional Minas.

Duas oficinas foram realizadas desde julho. Os mutirões mobilizaram ao todo mais de 30 pessoas de cerca de 10 instituições e resultaram na sistematização de 18 experiências. De 10 a 14 de setembro, será realizada a última oficina para sistematizar mais oito experiências. Estes momentos são realizados no mesmo espaço em que acontecerá o VIII EnconASA, o Sesc de Januária.

(*) Publicado originalmente na ASA Brasil.

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