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Pesquisa do IPEA discrimina camponeses ao afirmar que o problema da produção de alimentos no Brasil é a falta de educação no campo

analfabetismo no campoO analfabetismo do campesinato faz com que a produção de alimentos seja muito aquém do seu potencial. É o que aponta um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado na matéria “Investimento em educação rural triplicaria a produção, aponta estudo”, escrita por Marcelo Pellegrini, na última quinta-feira (12/07), publicado no site de notícias de Carta Capital.

Para aumentar a produtividade, a pesquisa revela que o problema dos agricultores não está no acesso à terra, mas na dificuldade de utilizar tecnologias que potencializem a produção de alimentos.“Hoje, o agricultor não precisa ter terra para produzir, precisa de tecnologia e para usar tecnologia precisa de educação”, defende o coordenador da pesquisa, José Eustáquio Ribeiro Vieira Filho.

De acordo com o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) o problema enfrentado pelos camponeses e camponesas vai muito além do que apenas realizar cursos técnicos voltados para a área agrícola. A educação cumpre um papel central na agricultura, mas não pode ser a única culpada pelos problemas que vivem a agricultura camponesa. É o que conclui Raul Krauser, da coordenação nacional do MPA, em resposta à pesquisa do IPEA, no artigo “Pesquisador conclui: uma aranha sem patas fica surda”.

Eis o artigo:

Pesquisador conclui: uma aranha sem patas fica surda

Por Raul Ristow Krauser[1]

Certa vez um pesquisador em seu laboratório pegou uma aranha treinada, que ao ter o comando de pular, pulava, então ele arrancou uma pata da aranha e ordenou que pulasse, ela pulou e ele anotou em sua prancheta, “a aranha com sete patas pula”. Arrancou novamente outra pata repetiu o processo, tornou a anotar em sua prancheta “aranha com seis patas pula”, e foi assim até que arrancou todas as patas, ordenou mais de três vezes que a aranha pulasse, a aranha não pulou, então concluiu sua pesquisa “a aranha sem patas fica surda”.

Quando li a conclusão de uma pesquisa do IPEA lembrei-me imediatamente dessa estória. Um ilustre pesquisador concluiu que o problema dos agricultores é a falta de educação, e ainda tem a ousadia de dizer que não precisa de terra para produzir, vamos fazer assim então: já que o agronegócio é tão moderno, entreguem suas terras para a agricultura camponesa, e produzam sem a terra, pode ser?

Conforme o censo agropecuário feito pelo IBGE em 2006, 84,4% dos estabelecimentos detinham 24,3% da área total, será que o problema é a educação?

A Legislação sanitária é uma barreira de mercado, já foram três ordens presidenciais e o SUASA (sistema único de atenção a sanidade agropecuária) não vira realidade, camponeses criam um mercado e quando vão vender sua produção são impedidos pela lei, será que o problema é a educação?

O crédito pelo seu formato, pelas exigências legais, chega a pouco mais de um quinto das famílias agricultoras, as demais tem acesso impedido, será que o problema é a educação?

A Secretaria da Agricultura Familiar, responsável pelas políticas para oito milhões de famílias, mais de 4 milhões de estabelecimentos tem em todo o país 200 funcionários, sendo que 34 são servidores os demais terceirizados e consultores, é fácil entender as dificuldades de funcionar a política pública para a agricultura familiar no Brasil, mas ainda assim, concluem que o problema é a educação.

O Agronegócio tem política pública de comercialização desde 1906, a agricultura familiar tem os primeiros ensaios à partir de 2002, que hoje beneficiam menos de 25% dos estabelecimentos, a média de idade dos funcionários da CONAB é de 65 anos, esta no teto da sua capacidade operacional.

A indústria da seca no semiárido Brasileiro continua, agora ganhando novos estímulos, ações de convivência são feitas pelas organizações a duras penas, políticas contundentes de convivência pelo estado não são feitas.

Ainda a pesquisa aponta para a capacitação para a utilização da tecnologia, ou seja, ao invés de apontar para uma educação efetiva, uma educação reflexiva, libertadora, aponta para subordinar de vez a agricultura camponesa à lógica industrial.

Podemos aqui citar diversas questões, mas o fato é que os camponeses tem acesso limitado ao comércio, à água, à terra, ao crédito, à saúde, à infra-estrutura e à educação, foram fechadas no campo nos últimos anos mais de 37 mil escolas, isso é gravíssimo, a educação tem papel central, mas não pode ser a culpada pelos problemas que vive a agricultura camponesa.

Reconhecer que há problemas no campo e que a agricultura camponesa pode produzir mais é um passo, mas chamar de ignorante e dizer que o seu problema é falta de educação é uma falácia. Essa conclusão mostra como esta arraigado no estado brasileiro e seus órgãos o preconceito contra o camponês, o preconceito contra esse sujeito social que construiu o país.

Nós camponeses pedimos respeito.

Eu confesso já estou cansado de ser enganado com tanto cinismo

Não sou parte integrante do crime e o próprio regime nos leva ao abismo

Se alcançamos as margens do incerto foram os decretos da incompetência

Falam tanto sem nada de novo e levam o povo a grande falência

Duduca e Galvan, Massa Falida

[1] Militante do Movimento dos Pequenos Agricultores

(*) Matéria publicada originalmente na página do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

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