vandanaPor José Coutinho Júnior,
Da Página do MST

Especialistas debateram no dia 16 os malefícios dos alimentos geneticamente modificados no seminário Falsas promessas dos transgênicos e os movimentos de resistência, realizado na tenda Carmem da Silva. O debate é parte da Cúpula dos Povos, e foi organizado pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), o Comitê Brasileiro de Estudos na Saúde (CBES) e conta com o apoio de movimentos sociais, como a Via Campesina. Participaram do debate Ana Carolina Brolo, advogada da organização Terra de Direitos, Pat Mooney, Membro do Grupo de Ação sobre Erosão, Tecnologia e Concentração (ETC, sigla em inglês), Vandana Shiva, da Fundação por Tecnologia Científica e Ecologia da Índia (Navdanya) e Angelika Hilbeck, da Rede Europeia de Cientistas pela Responsabilidade Social e Ambiental.

Ana Carolina iniciou o debate expondo o paronama dos transgênicos no Brasil, ressaltando o papel da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) nos processos de liberação destes alimentos. “A CTNBio é uma organização que critica cada vez mais as leis regulatórias dos transgênicos, como a lei que exige estudos aprofundados desses organismos, considerada ‘caduca’ pela organização. A CTNBio não negou a liberação de nenhuma semente transgênica até hoje”. Segundo Leonardo Veloso, secretário de agricultura e membro do grupo de estudos em agrobiodiversidade, em seminário realizado ontem sobre o agrário brasileiro, os estudos dos transgênicos levam de 15 a 20 dias apenas. “Com esse tempo pequeno de estudo, nem o cigarro faria mal à saúde”.

Em relação às formas de resistências a estes alimentos, Ana apontou uma dificuldade. “Um problema de se debater transgênicos e mover ações contra as corporações e seus produtos é que somos obrigados a provar tudo o que dizemos, ao invés da empresa ter de fazer isso. Acontece que a maioria do conhecimento em relação a esses organismos está nas mãos das transnacionais”.

Pat Mooney afirmou que os transgênicos e a biotecnologia não são a solução da crise alimentar, pois antes da liberação dos alimentos geneticamente modificados, haviam 500 milhões de pessoas no mundo passando fome. Hoje, há mais de 1 bilhão. A ineficácia desses alimentos fica clara ao ver o que foi obtido ao longo dos 20 anos de pesquisas com transgênicos.

“A indústria biotecnológica gastou 16 bilhões de dólares em pesquisas para desenvolver transgênicos, o que é uma quantia maior que o investimento público em todas as áreas de tecnologia agrícola. E o que se tem para mostrar? Apenas quatro culturas, capazes de resistir à veneno. O custo de pesquisa de um transgênico é 136 vezes mais caro do que o de uma planta normal. Então por que se investe dinheiro nesta tecnologia se está claro que ela não é a solução?”.

Vandana Shiva analisou o impacto social da entrada da Monsanto na Índia. O país, grande produtor de algodão, que tinha milhares de variedades de sementes, agora conta com 95% de suas terras dominadas por apenas uma variedade, produzida pela Monsanto. “A empresa dominou o mercado de sementes, por meio de um acordo com o governo chamado de substituição de sementes’, no qual se criaram leis que analisaram as sementes camponesas, que sempre foram utilizadas na Índia e, a partir de métodos industriais, elas foram consideradas ‘perigosas à saúde’. Além disso, a Monsanto subornou muitos fazendeiros para que estes abandonassem as sementes tradicionais pelas transgênicas”.

Com o surgimento da Monsanto na Índia, Vandana afirma que o preço para se produzir algodão aumentou mais de 25 vezes, e que a empresa lucra mais de 10 bilhões de dólares anualmente com os royalties das sementes. As patentes de sementes, segundo ela, são o único motivo da existência de transgênicos e da biotecnologia, que considera serem tecnologias desnecessárias. “Não precisamos da biotecnologia ou da biologia sintética. As ferramentas mais avançadas não justificam o caminho errado tomado”.

Por isso, Vandana integra um movimento que busca resgatar a soberania das sementes naturais da Índia e o fim das patentes. “Se abolimos as patentes, a biotecnologia pára, pois a sua única função é garantir o controle da biodiversidade. Em relação às sementes, precisamos fazer com que esse movimento assuma uma escala global. Precisamos nos organizar e dizer às corporações e governos que sabemos qual o futuro que queremos, e que somos nós que iremos moldá-lo”.

Angelika Hilbeck desmentiu todas as propostas que estão associados com os alimentos transgênicos. “A fome no mundo não acabou; pelo contrário, nos anos da revolução gênica (1995 a 1997) ela só aumentou. Se os transgênicos fizeram algo em relação à fome, foi agravar a situação de miséria, pois estes alimentos reforçam o modelo latifundiário, cuja maior parte da produção é destinada ao alimento de animais ou vai para as indústrias energéticas para se produzir combustíveis”.
Ela ressalta que outras promessas, como plantas específicas para a demanda dos produtores, o aumento da produtividade e a resistência às pragas também não foram cumpridas. Essa última, em especial, se agrava cada vez mais, pois os produtores estão tendo de recorrer à venenos antigos e perigosos para livrar a lavoura das pragas.

“Se os transgênicos são um produto falho, como as companhias conseguem vendê-los? Os produtos são secundários para as companhias; o que elas querem é manter o número de vendas alto para que as ações na bolsa de valores continuem altas. Então ao lançar uma nova semente, a companhia sabe que em 3 ou 4 anos as pragas terão resistência a ela, mas aí já deu tempo de se lançar um novo modelo, e assim por diante, mantendo o valor das companhias alto. É preciso termos em mente que não há uma tecnologia que vai acabar com a crise alimentar”.

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